Às vezes me pego pensando no peso que os dias carregam. Cada escolha, cada gesto, cada palavra dita ou silenciada vai costurando uma colcha de retalhos que chamamos de destino. Mas e se, de repente, a vida resolvesse brincar de generosa e me oferecesse um botão de reinício?
Imagino que a cena não seria grandiosa. Nada de clarões divinos ou anjos anunciando o milagre. Talvez fosse apenas um bilhete esquecido embaixo da porta, escrito em letras apressadas: “Você tem direito a uma segunda chance.” E o coração, descompassado, ficaria entre a euforia e o medo.
Na pressa, eu pensaria primeiro nos erros. Nos telefonemas que não fiz, nas desculpas que deixei para depois, nos abraços que ficaram em suspenso. Correria atrás de tudo isso, acreditando que a vida nova serviria para resgatar o que a antiga deixou escapar pelos dedos.
Mas a segunda chance não é apenas correção de rota. Ela é, acima de tudo, um convite a enxergar diferente. Talvez, em vez de tentar costurar as mesmas peças, eu buscasse outras cores, outros tecidos. Porque não adianta repetir a história com pequenas alterações, se o olhar continua o mesmo.
E se a vida me desse essa dádiva, eu aprenderia a andar mais devagar. Não para atrasar os sonhos, mas para não tropeçar neles. Reaprenderia a ouvir sem preparar respostas, a sorrir sem esperar retorno, a dizer “eu te amo” sem o medo ridículo de parecer frágil.
Talvez, com essa nova oportunidade, eu não fosse menos teimoso, nem menos contraditório. Mas seria mais humano. Mais disposto a reconhecer a beleza dos instantes comuns: o café quente, a brisa da tarde, o silêncio que descansa a alma.
No fundo, a segunda chance não estaria na vida em si, mas no meu jeito de vivê-la. Porque ela pode até me dar novas estradas, mas sou eu quem escolhe se caminho com os olhos no chão ou olhando o horizonte.
E quem sabe, ao final desse reinício, eu descobrisse que não precisava de uma vida inteira para ser feliz — bastava uma segunda chance em cada manhã, um recomeço em cada gesto simples, uma possibilidade renovada a cada respiração.
Afinal, talvez a vida já nos dê segundas chances todos os dias. Somos nós que, distraídos, confundimos com rotina.
Por Mirta Lourenço. Médica, professora, cronista e poetisa
*Este artigo é de inteira responsabilidade da autora, e não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cariri










