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Voo solo – Por J. Flávio Vieira

Colunista escreve semanalmente neste espaço​, sempre aos domingos

20 de outubro de 2019
Voo solo – Por J. Flávio Vieira
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Sinuca de bico. Difícil transitar em areia movediça, sem o constante risco de desaparecer no limbo. Albertino pensava naquela saia justa em que vivia metido nos últimos meses, sem perceber qualquer fresta no fim do corredor. Via-se numa encruzilhada em que todos os caminhos possíveis pareciam de alguma maneira obstruídos: o da esquerda por uma árvore tombada; o da direita com um enxame de abelhas oropa; o da frente atapetado de serpentes; o de trás desembocando num abismo. Pensava nisso, enquanto se encaminhava para casa, em meio de expediente, a chamado urgente do irmão Manoel. Nos últimos tempos os sobressaltos se sucediam.

Mente anuviada, lembrou, de relance, do passado , quando as coisas pareciam mais simples e a vida inundava-se mais de fragrâncias de piqueniques do que de trovoadas. A mão trêmula girou a chave da ignição do carro em meio à turbulência de pensamentos e reflexões. Manoel , pensou com seus atavios, fizera-se sempre o atleta da família. Lépido, fagueiro, encarou os esportes mais radicais com incríveis bravura e destemor. Atapetara os móveis da casa de troféus: body jamping, windsurf, parapente, asa delta. Classificara-se , inclusive, recentemente, como atleta olímpico numa modalidade pouco comum : o wingsuit. Com um traje especial, Manoel refizera o sonho de Ícaro, sobrevoara vales e montanhas, contornando escarpas pontiagudas de picos e paredões, com manobras ágeis e certeiras. Impossível imaginar que o grave acidente que terminou por lhe tolher os voos futuros viria de um simples tropeção na escada de casa. De repente, aquela mudança súbita, como se a intensidade que Manoel imprimira à vida tivesse sido uma compensação da paralisia que em breve tingiria seus dias. Como engolir aquela sentença peremptória: até os fins de seus diasele estaria fadado a mover apenas o braço direito, ficaria dependente de cuidados mínimos de higiene, mobilidade e sobrevivência.

Albertino, enquanto dirigia o carro, maquinalmente, meio atabalhoado, ia recordando flashes da tragédia que se abatera sobre a família. De início, Manoel manteve-se impávido e esperançoso, mesmo com a sentença sinistra. Talvez porque lhe foi passada meio truncada pelo neurologista, deixando antever ainda a possibilidade de algum lume em meio à cerração. Com o passar dos dias, porém, a bruma espessa invadiu lhe a alma. Manoel manteve-se sorumbático e revoltado. Depois calou, monossilabou-se. Albertino procurou novamente o médico, a pedido da mãe e deixou transparecer suas preocupações. O profissional , experiente, pediu aos familiares que tirassem, sorrateiramente, os medicamentos do alcance do paciente. Prescrevera muitos medicamentos controlados e temia que, no desespero, Manoel fizesse um gesto tresloucado e procurasse abreviar o destino tenebroso a que estava condenado. Assim o fizeram e nos primeiros dias, aparentemente, ele não deu pela mudança, continuou silente, aceitando a medicação que lhe entregavam, sem estrebuchar. Albertino, assim, não conseguia prever a razão do chamamento súbito feito pelo irmão. Estacionou o velho Opala/92 defronte da casa e entrou um tanto sobressaltado.

Manoel , ao vê-lo, deitado na cama que tinham alugado do hospital, falou-lhe que queria uma conversa particular. Aparentava calma, estranhamente parecia que tinham se dissipado as nuvens carregadas dos dias anteriores. Albertino pediu à mãe que os deixasse a sós por alguns instantes fechou a porta do quarto. Ele então olhou-o sereno e explicou ao irmão todo seu dissabor. Não havia justiça naquilo que tinham feito com ele, afastando-o dos remédios. Disse ser um condenado às galés perpétuas pelo destino. Sabia: eles imantavam-se das melhores intenções, mas que ninguém nesse mundo carregava o direito sagrado de tirar das suas mãos a única possibilidade de aliviar seu sofrimento. Sabia-os religiosos e , por isso mesmo, temerosos de uma saída drástica pela porta lateral da vida e a possibilidade de uma outra condenação na eternidade, mas, a seu ver, se existisse uma força superior uma tragédia daquela seria evitada e uma decisão sua, por mais extrema que fosse, seria, certamente, compreendida. Olhando profundamente nos olhos de Albertino, Manoel pediu-lhe para que não fechasse a única porta nesta vida que ainda lhe permanecia um pouco entreaberta.

Albertino abraçou longamente o irmão, banhado em lágrimas. Sem pronunciar uma palavra, pegou os vidros de remédios que repousavam em cima da cômoda e os colocou ao alcance da mão direita de Manoel. Ao sair convenceu a mãe que falara com o médico e ele confirmara que era melhor deixar o próprio paciente controlar sua medicação, naquela fase do tratamento.

Albertino retornou ao trabalho aflito mas aliviado. À noite , como um milagre, de repente Manoel levantou-se do leito e vestiu sua roupa de wingsuit. Saltou pela janela e voou alto. Lá embaixo a cidade estava iluminada por uma infinidade de vagalumes. Um vento doce aos poucos lhe refrescou o corpo. A lua brilhava no céu como uma promessa.

Por J. Flávio Vieira, médico e escritor

*Este texto é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cariri

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