Durante anos, apostar foi tratado como um passatempo, uma distração moderna embalada por promessas de dinheiro fácil e histórias de sucesso nas redes sociais. No entanto, esse cenário mudou de forma acelerada e quase invisível. O crescimento das plataformas digitais transformou o jogo em um risco constante, presente no bolso, no quarto e na rotina de milhões de brasileiros. Agora, o país começa a encarar de frente um problema que deixou de ser privado e ganhou contornos de crise coletiva.
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Quando o entretenimento vira problema de saúde pública
O avanço dos jogos de aposta no Brasil passou a chamar a atenção das autoridades de saúde. O que antes aparecia como casos pontuais começou a se repetir com frequência nos serviços públicos. Entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados ao chamado jogo patológico cresceram de forma significativa, acompanhados por relatos de endividamento extremo, sofrimento psíquico e desestruturação familiar.
Diante desse cenário, o Ministério da Saúde lançou, em janeiro, um guia nacional de cuidado voltado especificamente para pessoas com problemas relacionados às apostas. O documento consolida uma realidade já percebida por profissionais da área: o vício em jogos deixou de ser exceção e passou a exigir resposta estruturada do Sistema Único de Saúde (SUS).
O material orienta equipes da atenção básica, da Rede de Atenção Psicossocial, dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), hospitais e serviços de urgência a atuarem de forma integrada. A diretriz é clara: o cuidado precisa ser contínuo, escalonado e proporcional à gravidade dos casos, tratando o transtorno não como falha moral, mas como uma condição clínica complexa.
O mecanismo invisível que prende o cérebro
Diferentemente das dependências químicas, o vício em jogos não envolve uma substância externa. O gatilho está na incerteza. A expectativa da vitória ativa o sistema de recompensa do cérebro, provocando a liberação de dopamina, o mesmo neurotransmissor associado a substâncias altamente estimulantes.
Com o tempo, esse estímulo deixa de ser suficiente. O cérebro se adapta e passa a exigir apostas maiores e riscos mais elevados. O padrão se repete: o jogador deixa de apostar para ganhar e passa a jogar para tentar recuperar a sensação inicial.
A tecnologia potencializa esse efeito. Se antes era necessário ir fisicamente a casas de aposta, hoje o jogo está disponível 24 horas por dia no celular. O aparelho se transforma em um cassino portátil, acessível nos momentos de tédio, ansiedade ou frustração. Essa disponibilidade reduz o espaço para reflexão e aumenta a vulnerabilidade às recaídas.
Do ganho inicial à queda financeira
Na prática, o ciclo costuma começar de forma discreta. Um valor pequeno, algumas vitórias e a sensação de controle. Foi assim com Roberto, nome fictício de um pai de família que passou a apostar influenciado por conteúdos nas redes sociais.
No início, as quantias eram baixas e os ganhos frequentes. Em pouco tempo, acumulou um valor significativo e passou a acreditar que havia encontrado uma solução financeira. A ilusão de sucesso rápido deu lugar a uma escalada: apostas mais altas, decisões impulsivas e a crença de que o próximo lance resolveria tudo.
Em poucos meses, as reservas financeiras desapareceram, dívidas se acumularam e vínculos pessoais começaram a ruir. O impacto foi além do dinheiro: surgiram isolamento social, sofrimento emocional e ruptura familiar.
Histórias como a de Roberto se multiplicam em todo o país e mostram como o jogo online pode atravessar a vida cotidiana sem aviso, corroendo lentamente estruturas emocionais, sociais e econômicas.
O papel da psicologia e os limites da família
Parte da força desse sistema está no próprio design dos aplicativos. Sons de vitória, luzes, recompensas aleatórias e estímulos visuais constantes criam um estado de imersão contínua. O tempo passa sem ser percebido, e o jogador desenvolve uma falsa sensação de controle.
Esse mecanismo é especialmente perigoso entre jovens, cujo cérebro ainda não amadureceu totalmente as áreas responsáveis pelo autocontrole. Até cerca dos 25 anos, a vulnerabilidade ao sistema de recompensa é significativamente maior.
O tratamento, agora incorporado à rede pública, envolve psicoterapia, principalmente a abordagem cognitivo-comportamental, e, em alguns casos, uso de medicamentos para reduzir a compulsão. O ambiente familiar também tem papel decisivo. Especialistas alertam que ajudar não significa assumir dívidas ou eliminar consequências, já que isso tende a perpetuar o problema.
A recuperação envolve reconstrução da autoestima, da confiança e dos vínculos afetivos. São comuns quadros de ansiedade, irritabilidade, sensação de vazio e sofrimento emocional intenso, que impactam não apenas quem joga, mas todos ao redor.
Apesar da gravidade do cenário, profissionais reforçam que a recuperação é possível. Com acompanhamento adequado e apoio contínuo, é possível reorganizar a vida e resgatar o prazer fora da lógica imposta pelos algoritmos das apostas.
Por Mirta Lourenço








