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15 coisas que as pessoas que vivem com HIV gostariam que você soubesse

Ouvimos especialistas e listamos os principais mitos e verdades que envolvem o tema

22 de dezembro de 2020
(Foto: iStock)

(Foto: iStock)

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Com o surgimento nos anos 1980 e explosão de casos até o início da década seguinte, o vírus do HIV/Aids ainda carrega estigmas sobre como a infecção atinge o paciente diagnosticado. Mesmo com campanhas e avanço considerável da medicina sobre o tratamento —ainda sem cura—, dúvidas ainda rondam a mente de quem se depara pela primeira vez com o vírus ou conhece alguém que vive com a condição sorológica.

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, foram diagnosticados 41.909 novos casos de HIV e 37.308 casos de Aids, em 2019. O dado é o mais recente, publicado no boletim epidemiológico em 1º de dezembro de 2020. No total, de 2007 até novembro de 2020, o Brasil diagnosticou 342.459 pessoas com HIV.

Ouvimos especialistas e listamos os principais mitos e verdades que envolvem o tema.

1) Vivo com HIV. Isso quer dizer que tenho Aids
Mito. O HIV é considerado pela medicina o vírus transmissível, que pode ser passado de uma pessoa para outra através da relação sexual, transfusão de sangue ou verticalmente de mãe para filho durante o parto ou amamentação. A Aids, sigla em inglês que significa Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, é o estágio avançado do vírus no organismo do paciente, que causa a debilitação do sistema imunológico.

Segundo a médica infectologista Letícia Ikeda, do Hospital Partenon, referência no tratamento do HIV na região Sul, quem tem HIV, necessariamente não significa que também possui Aids, mas quem está diagnosticado com Aids, obrigatoriamente está com o vírus HIV no organismo.

“Quando o HIV destrói o sistema imunológico e fica suscetível a doenças graves, ela é considerada uma pessoa com Aids. Ter HIV é viver com o vírus. Ter Aids é possuir a doença pelo vírus no organismo em razão da imunidade”, explicou.

2) Posso ser diagnosticado já com quadro de Aids
Verdade. De acordo com médicos ouvidos, se a pessoa esteve exposta ao vírus, como ter praticado relações sexuais sem proteção, e não fez o teste para saber da condição sorológica, é possível que descubra a infecção já em quadro avançado. Isto é, na condição da Aids.

A recomendação é realizar exames periódicos em caso de relações sexuais sem proteção com mais de um parceiro para que o vírus não seja descoberto em quadro avançado.

Não existe uma orientação do Ministério da Saúde sobre em quanto tempo deve ser essa periodicidade da realização dos exames, mas os médicos aconselham que a pessoa busque pelo teste após se expor ao vírus.

No Brasil, em 2019, o Ministério da Saúde contabilizou 37.308 pessoas com Aids. O dado, por outro lado, não difere se são casos novos ou de pacientes já com HIV. “Qualquer relação sexual pode transmitir o HIV. Em tese, todo mundo deveria se testar”, avisa Rodrigo Zilli, infectologista, diretor médico da farmacêutica GSK para HIV e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia.

3) Estou exposto ao vírus HIV somente se tiver relações sexuais desprotegidas
Mito. Além das relações sexuais, o vírus também pode ser transmitido por meio de contato com o sangue do diagnosticado com o HIV ou de maneira vertical, ou seja, de mãe para filho em caso de gestações sem o acompanhamento de um profissional médico durante o pré-natal.

Em razão do vírus, a pessoa que vive com o HIV não pode doar sangue, mas não está impedida de receber uma transfusão em procedimento médicos.

4) Descobri o HIV e não posso ser mãe de um bebê saudável
Mito. No Brasil, não existe qualquer legislação ou norma que proíba os pais que vivem com HIV de terem filhos. Além disso, se descoberto o quanto antes, durante o pré-natal, o bebê pode não ser infectado pelo vírus durante o parto, seja ele natural ou cesárea.

Segundo a médica Letícia Ikeda, durante o pré-natal, a mãe deve realizar exames para saber se vive com o HIV. Em caso de testagem positiva, o tratamento é iniciado de imediato para que se torne intransmissível.

O exame também serve como preparação para a equipe médica do parto na adoção de protocolos após o nascimento do bebê, como a prescrição de remédios de profilaxia pós-exposição.

Além disso, a mãe deixa de amamentar o filho, mesmo em caso carga viral indetectável. Com isso, o bebê recebe o alimento de bancos de leite públicos ou suplementação láctea através do SUS (Sistema Único de Saúde).

“O bebe vai tomar o remédio por 30 dias e a mãe não vai amamentar. A política brasileira está desenhada para não permitir a transmissão vertical. Se for adotado este protocolo, a taxa de transmissão cai para menos de 2%”, comenta Ikeda.

5) Meu teste HIV pode dar falso negativo
Verdade. Se a pessoa esteve exposta ao vírus e fez o exame, pode ser que tenha um resultado de falso negativo. É que dependendo do organismo, o vírus se manifesta no teste de imediato ou após 30 dias a exposição ao HIV. Esse período é chamado de janela imunológica.

“Se um teste isolado, sem nenhum indício de exposição, der negativo, é este o resultado mesmo. Agora se a pessoa esteve em uma condição exposta, sempre é recomendável fazer um teste um mês depois se o primeiro deu negativo”, orienta Zilli.

6) Vou morrer mais cedo porque estou diagnosticado com HIV
Mito. A expectativa de vida de um paciente infectado e em tratamento é a mesma de pessoas sem a referida condição sorológica. Médicos ouvidos explicam que ninguém morre com quadro de HIV. A mortalidade pode atingir os pacientes com estágio avançado de Aids.

Por outro lado, a morte não ocorre pelo vírus em si, mas por doenças oportunistas que se aproveitam de um sistema imunológico debilitado. “Só morre de Aids quem não trata ou quem não sabe que possui por falta de diagnóstico. A Aids não mata, mas a pessoa é atingida com deficiência no sistema imunológico, o que pode fazer surgirem doenças oportunistas”, diz o infectologista Juliano Molina, do Hospital de Clínicas da UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro), referência em HIV na região.

7) Não consigo sobreviver a Aids porque o meu sistema imunológico está fraco
Mito. Membro da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV (RNP+Brasil), Vanessa Campos é exemplo da superação do quadro de Aids. Vivendo com o vírus há 30 anos, ela passou pelo estágio mais avançado do HIV e conseguiu reverter o quadro.

“Quem vive com HIV pode evoluir para Aids se não fizer tratamento ou tiver diagnóstico tardio, com a descoberta do vírus em um estágio avançado. Eu mesma tive Aids e estou aqui, vivendo com o HIV há 30 anos”, celebra.

O paciente pode superar a Aids com uso de medicamentos diários. É necessário que o diagnosticado tome os remédios de maneira regular.

8) O vírus HIV não se manifesta por sintomas no corpo
Mito. Quando a pessoa está com o vírus e não sabe da sua condição sorológica, o HIV pode se manifestar em quadro de Aids através de sintomas semelhantes a de uma virose em quadro agudo.

O exame rápido de HIV dura em média 30 minutos para emitir o resultado e pode ser feito em qualquer UBS (Unidade Básica de Saúde) ou centro especializado em doenças infecciosas.

Além disso, quem se expôs ao vírus pode procurar um centro de saúde para realizar a profilaxia pós-exposição, que é um medicamento a ser tomado em até 72 horas depois do sexo desprotegido.

“Boa parte das pessoas fica sem sintomas, porém o mais comum é o quadro de uma virose aguda. Muitos não pensam em HIV, mas se a pessoa esteve em exposição ao vírus, é recomendável que peça a unidade de saúde o exame. O sintoma pode sumir e depois pode voltar como Aids”, explica Rodrigo Molina.

9) Quem vive com HIV e Aids pode beijar, abraçar e dividir itens pessoais
Verdade. Não existe qualquer estudo médico que tenha comprovado a transmissão do vírus de uma pessoa para outra através de gestos de afetos, como beijos, abraços ou apertos de mão. Também não há comprovação científica de propagação do HIV por compartilhamento de itens pessoais de rotina, a exemplo de talheres, toalhas, roupas e demais objetos do gênero.

“As formas de transmissão do HIV são sexuais, sanguínea ou vertical. Não existe por beijo, abraço, aperto de mão ou compartilhamento de talheres, por exemplo. Tudo isso é um estigma que o vírus carregou por um tempo”, comentou a médica Letícia Ilkeda.

10) Sexo oral e brinquedos sexuais podem transmitir o vírus HIV
Verdade. O sexo oral é considerado por especialistas infectologistas como uma relação sexual que também pode causar a transmissão do vírus, caso a pessoa que o receba esteja com a carga viral detectável.

O mesmo pode acontecer com o compartilhamento de brinquedos sexuais durante com contato direto com os órgãos sexuais de uma pessoa detectável durante as relações.

“Se [o brinquedo] estiver sujo com material biológico que pode carregar o vírus, como sêmen ou sangue, pode transmitir”, alerta o infectologista Juliano Molina.

11) Se o HIV não tem cura, não preciso tomar remédio
Mito. Apesar de não existir uma cura para o vírus por meio de medicamentos ou vacina, médicos recomendam que se inicie o tratamento de imediato após as primeiras consultas com o infectologista.

A medicação acontece por meio de um antirretroviral em comprimido, tomado todos os dias. O tratamento é orientado por dois motivos: o primeiro recai sobre a própria saúde do paciente para que não desenvolva um quadro de Aids; e a outra razão está relacionada com a transmissão do vírus para outra pessoa.

A mesma recomendação de início imediato é seguida por entidades de apoio e representativas de pessoas que vivem com HIV. “O vírus não tem cura, mas o tratamento consegue controlar a multiplicação. Ele faz com que o HIV fique indetectável e isso preserva as células de defesas do organismo. O HIV continua, mas com uma quantidade tão pequena que se torna intransmissível sexualmente”, diz Vanessa Campos, da RNP+Brasil.

12) Iniciei o tratamento contra o HIV e ficarei indetectável imediatamente
Mito. Dependendo da carga viral do diagnosticado, o remédio faz efeito entre o terceiro e o sexto mês. O paciente deve realizar exames nesse período para saber se o HIV já está intransmissível.

A farmacologia avançou bastante desde o surgimento do vírus, o que deixa a condição de ser ou não uma pessoa indetectável exclusivamente nas mãos dos pacientes.

“Se até os seis meses, não se tornou indetectável, é preciso reavaliar o medicamento. Na maioria dos casos, é por falha da pessoa que não está tomando o remédio adequadamente. Tudo vai depender de quanto é a carga viral no início para saber quando estará indetectável”, esclarece o médico Juliano Molina.

13) O remédio contra o HIV tem efeitos colaterais ou contraindicações
Verdade. “Nenhum medicamento é isento de efeitos adversos. A pessoa não pode sair da consulta achando que vai passar mal. A maioria das pessoas não terá efeitos, mas em algumas pode causar algum efeito colateral. Os medicamentos atuais não têm tantos relatos porque a medicina e a farmacologia avançaram bastante”, avisa Ikeda.

Os efeitos colaterais são considerados leves, como náuseas ou ânsia, dependendo de como o organismo responde aos medicamentos. São bem diferentes em relação aos resultantes de remédios fabricados entre o fim dos anos 1990 e a primeira década dos anos 2000, que causavam lipodistrofia, por exemplo, que é o ganho e perda de massa corporal de maneira assimétrica.

14) Fui diagnosticado com HIV e agora preciso contar no trabalho
Mito. Quem vive com HIV tem o direito ao sigilo da sorologia e não é obrigado a revelá-la no trabalho ou em processos de admissão de emprego. Isso está garantida na CLT (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452.htm).

Em caso de qualquer referência sorológica do médico do trabalho em processos de admissão, o diagnosticado pode procurar o Ministério Público do Trabalho para formalizar denúncia.

Os profissionais médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos também devem manter o sigilo da sorologia do paciente. O descumprimento pode resultar em reclusão de um a quatro anos, e multa, conforme estabelece a lei 12.984, de 2012.

15) Preciso deixar de fazer o que gosto porque vivo com HIV
Mito. Uma pessoa que vive com HIV pode ter uma rotina normal, como qualquer outra. A condição sorológica não impede a prática de atividades esportivas, ingestão de bebidas alcoólicas ou uso de cigarros.

Além disso, não existe interação medicamentosa entre o tratamento contra o HIV e os remédios de uso rotineiro, como anticoncepcionais, e os esporádicos, a exemplo de dipirona. O paciente, contudo, deve informar ao médico em caso de utilização de algum tipo de medicamento controlado.

Fonte: Viva Bem/UOL

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