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Conta de energia deve ter bandeira vermelha até o fim do ano, mas risco de racionamento é descartado

Para suprir demanda de energia, Governo Federal deverá ativar mais usinas térmicas, o que deve manter o valor da conta de energia em um patamar alto durante todo o ano

17 de maio de 2021
(Foto: Samuel Pinheiro/Revista Cariri)

(Foto: Samuel Pinheiro/Revista Cariri)

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Uma nova crise no nível dos reservatórios está levando a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a aplicar a bandeira vermelha, encarecendo o valor da conta de luz. De acordo com especialistas, consumidores precisam se preparar, pois este cenário deve se estender ao longo deste ano, por conta das estratégias adotadas para garantir o abastecimento.

Neste quadro de escassez hídrica no País, o que já aconteceu repetidas vezes no passado, e considerando que mais de 60% da produção de energia no Brasil depende das hidrelétricas, levantou-se a hipótese de racionamento. Contudo, especialistas do setor descartam qualquer risco de desabastecimento de energia em 2021, afirmando que, para tal, seria necessária uma “tempestade perfeita”.

Sem risco de racionamentos
Segundo o diretor técnico do Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Estado do Ceará (Sindienergia), Daniel Queiroz, não há motivos para preocupação, ainda, sobre possíveis riscos de desabastecimento de energia no Brasil e, por consequência, de racionamento.

Contudo, ele explicou que os níveis dos reservatórios geram, sim, um alerta ao Governo Federal e ao Ministério de Minas e Energia, o que deverá levar à ativação das usinas termelétricas.

O problema é que essas unidades chegam a ser três ou quatro vezes mais caras que as hidrelétricas, fazendo com que a Aneel aplique a bandeira vermelha.

Queiroz ainda projetou que esse cenário deverá se repetir mais vezes durante 2021.

“Se falta água, temos as termelétricas, que usam gás. Temos um plano B, mas o que podemos sofrer é a aplicação da bandeira vermelha durante momentos de 2021 e o presidente da ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) disse que não temos nenhum alerta ainda”, explicou Queiroz.

Situação regional
A perspectiva foi corroborada pelo coordenador do Núcleo de Energia da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Joaquim Rolim, que destacou a situação na região sudeste, onde os níveis dos reservatórios devem demandar mais atenção dos agentes públicos do setor de energia.

“Nós temos no País, um comitê de monitoramento do setor elétrico, que contém a ONS, o Ministério de Minas e Energia, e eles reafirmaram que não existe risco de desabastecimento neste ano, mas que teremos de acionar muito mais térmicas e isso impacta os gastos com energia”, disse.”
Joaquim Rolim, coordenador do Núcleo de Energia da Fiec

“A situação mais preocupante é na região Sudeste, que tem uma alta demanda e está com baixos níveis de reservatórios”, completou.

Sobre o Nordeste, Rolim explicou que a situação é um pouco diferente, já que a Região vem explorando o potencial das fontes renováveis de energia.

Por conta desse cenário, como uma das estratégias para evitar os riscos de desabastecimento, ele defendeu que seria necessário aprimorar as linhas de transmissão, facilitando a transferência de energia entre estados.

“No Nordeste, estamos tendo uma recuperação nos níveis de reservatórios, mas precisamos ampliar o nível de transmissão de energia entre estados. O Ceará tem um bom nível de produzir energia eólica e solar, e precisamos melhorar nesse aspecto”, explicou Rolim.

‘Tempestade perfeita’
Já para haver uma preocupação real de um desabastecimento, forçando um racionamento de energia, Daniel Queiroz explicou que o Brasil precisaria passar pelo que chamou de uma “tempestade perfeita”.

Além dos problemas já existentes causados pela crise hídrica, algum fator externo teria de elevar de forma exponencial o preço do gás usado nas usinas térmicas, algo que não vem sendo observado, e o País teria de estar em um ciclo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) semelhante ao observado em 2010.

A alta demanda energética pelo bom nível de atividade econômica ajudaria a pressionar ainda mais a oferta produtiva do setor brasileiro. A partir desse cenário consolidado, segundo Queiroz, poderia se considerar um risco de racionamento no Brasil.

Mas como o cenário observado no Brasil é de um baixo crescimento econômico aliado a uma perspectiva de alta da inflação em segmentos específicos gerada pela crise do novo coronavírus e pela desvalorização cambial do real frente ao dólar, é pouco provável que haja um aumento súbito da demanda energética no País.

“Temos um caminho ainda longo a percorrer para chegarmos ao ponto do racionamento. Todos os players do mercado afirmam que não há ainda um risco. O que acontece é corriqueiro e o que temos é uma crise hídrica já que a nossa base de energia é 60% baseada nessa fonte. Mas estamos longe desse pânico”, afirmou Daniel Queiroz, diretor técnico do Sindienergia.

Cenário do Estado
Ainda segundo o diretor técnico do Sindienergia, mesmo que o Ceará possua uma matriz energética mais focada em fontes renováveis de energia, como solar e eólica, o Estado não estaria totalmente livre dos riscos de desabastecimento se houvesse uma crise nacional.

Como o sistema brasileiro de distribuição de energia é unificado, se houvesse uma crise geral, o consumidor cearense também seria afetado.

“Como a energia no Brasil coloca todo mundo na grande rede, a situação é geral para todo o País. A gente, como Estado, não está isolado de qualquer efeito catastrófico que vier a acontecer, mas a nossa fonte de energia ainda tem outras fontes, como solar e eólica. E vamos ver no curto prazo um aumento tarifário também no Ceará”, explicou.

Como evitar a alta de preços
Uma das alternativas apontada pelos especialistas para que o consumidor possa evitar a flutuação brusca de preços da energia é investir na própria produção, fazendo parte do mercado de geração distribuída.

Tanto Rolim quanto Queiroz destacaram o avanço desse mercado no Brasil e no Ceará, afirmando já existem diversas empresas fornecedoras do serviço. Ambos também apontaram que a fonte solar é a mais difundida atualmente e pode ser uma opção ao consumidor.

Apesar do investimento relativamente alto no começo do projeto, independentemente do tamanho da planta que se deseja usar, é possível instalar placas solares e gerar a própria energia em domicílios ou até em empresas.

Incentivos ao setor
Contudo, Joaquim Rolim destacou que o Governo Federal ainda poderia dar mais suporte ao setor para impulsionar ainda mais a produção de energia pela geração distribuída.

Ele comentou que representantes da Fiec e do Sindienergia articulam com parlamentares em Brasília pela aprovação do Projeto de Lei 5829/2019 (PL 5829), que forneceria incentivos fiscais às empresas do segmento, possibilitaria novos investimentos para a rede de transmissão no Norte e Nordeste e criaria um projeto social para permitir a entrada de faixas mais pobres da população na geração distribuída.

“Temos vários projetos, como PL 5829, que vem sendo elaborado há mais de um ano, com o debate de geração distribuída sendo mantido pela Aneel desde 2008. Mas precisamos avançar. O presidente da Fiec, Ricardo Cavalcante e representantes do Sindienergia estiveram em Brasília para discutir a situação, é uma discussão ampla”, disse Rolim.

Por Samuel Quintela

Fonte: Diário do Nordeste

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