“Covarde: alguém que,
numa situação perigosa,
pensa com as pernas.”
Ambroise Bierce
Há uma história típica cratense daquelas que nos impelem a gritar, imediatamente: “Mas menino, só no Crato mesmo…” Tínhamos na cidade, aí pelos anos 60, um soldado que carregava a fama de nunca ter prendido ninguém. Sabia dos riscos inerentes à sua profissão e dava um jeito de se escafeder nos momentos de maior perigo. Houve, à época, algumas escaramuças pras bandas de Missão Velha e pistoleiros fugiram de lá e se entocaram ali no Recreio, próximo à Batateira, numa casa estratégica, posta no alto, com ampla visão do território ao redor. A PM de Crato foi, de pronto, acionada e, no batalhão convocado para enfrentar os bandoleiros, estava o nosso herói. Mal foram se acercando da casa, tiveram como recepção uma saraivada de balas. Um pobre lavrador desavisado ia passando perto dali, com uma enxada no ombro, foi alvejado e caiu duro, sem dizer nem “ui”. Neste exato momento, nosso valente militar avisou à tropa: “Eita! Rapaz! São muitos! Segurem o fogo aí que eu vou buscar reforço! “Logo à frente, entrou dentro de um canavial, puxou a faca e ficou descascando e chupando cana até que os bandidos, por fim, se evadiram.
Esta história me veio esta semana à lembrança quando o deputado Eduardo Bolsonaro fez bunda de ema e correu, com o rabo entre as pernas e uivando “caim-caim-caim”, para os States. Vendo a corda apertar no pescoço da famílicia, não aguentou o tranco: “perna-pra-quê-vos-quero”. De longe, mantendo distância regulamentar” rosnou alto, latiu forte. Considerava-se perseguido político de uma ditadura, talvez esquecendo que eles mesmos a quiseram implantar com seu exército de Brancaleone e deu no que deu. Temia, na realidade, um julgamento em pleno estado de direito, com ampla defesa e presunção de inocência até prova em contrário. Estranho que os defensores da tortura, da censura e da prisão e morte de adversários se ofusquem, facilmente, ante à luz da democracia. A arrogância, a prepotência, o discurso de ódio, o cuspir fogo da extrema direita, é fogo de palhiço escondem uma pulsilaminidade, uma covardia, uma fraqueza difíceis de se avaliar.
O pai, expulso das FFAA, já andou ensaiando uma fuga, se hospedando na Embaixada da Hungria e, depois, querendo partir para os EUA sob pretexto de ir à posse de Trump. Lembrar que o bravo capitão chorou no aeroporto vendo a comitiva de direitopatas seguir para assistir à posse, num hotel, pela televisão! É provável que o filho pródigo esteja ajeitando a cama e varrendo a casa esperando o resto do filme: “A Fuga das Galinhas”. Interessante é que toda a trupe dos Patriotas, que já não pode cantar aquela parte do hino nacional que fala: “Verás que um filho teu não foge à luta” , rosnava que bandido bom é bandido morto, defendia a pena de morte, votara contra as saídas periódicas de presos, se postava a favor da tortura. Isso, claro, para seus adversários, para os amigos fazem manifestações vazias pedindo Anistia.
Um dos crimes mais hediondos para os militares é a deserção. Há um código de ética de que não se deixa ninguém para trás. Espera-se que aqueles pagos regiamente pelo estado para defendê-lo não apontem as armas, que lhe são dadas com dinheiro público, contra seu próprio povo. Duque de Caxias e Tamandaré devem estar se contorcendo no túmulo. A regra agora é: perna pra que vos quero, salve-se quem puder!
Nesses dias, assistindo ao filme “A Fuga das Galinhas” na sua nova versão, descobrimos que o epíteto “Bananinha” tem muito mais relação com o caráter do que com a anatomia. Brecht dizia: “triste de um país que precisa de heróis”, imaginem vocês o desalento de uma nação que exalta, defende e se ampara na covardia e na frouxidão.
— Segurem o fogo aí, cambada, eu vou buscar reforço!
Por J. Flávio Vieira. Médico e escritor. Membro do Instituto Cultural do Cariri (ICC). Agraciado com a Medalha do Mérito Bárbara de Alencar
*Este texto é de inteira responsabilidade do autor, e não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cariri