Naquele ano a escola de samba estava perfeita. Foram meses de preparação para no desfile demonstrar todo o glamour das fantasias, todo samba no pé, toda harmonia, todo poder da bateria, historicamente nota dez. Havia uma empolgação natural na comunidade, afinal defenderiam o título já que no ano anterior a escola havia vencido pela enésima vez. Falando assim, dá para pensar que se fala de algo luxuoso como as agremiações cariocas de atenções globais. Não! Embora o carnaval seja uma coisa só, assim como há dois brasis, há dois carnavais, o carnaval apoteóticos que vemos na TV e os carnavais do povo Brasil à fora.
Este carnaval que vos falo pertence ao segundo grupo. Tudo o que se produzia para aquele desfile era fruto de muito esforço e luta da comunidade. Não havia patrocínios e o apoio da administração pública quando havia, era posterior ao desfile, como premiação. Então a turma se virava nos trinta. Tudo com muita paixão, alegria e irreverência.
Vale dizer que o samba enredo estava na boca do povo, ainda hoje, décadas depois. Era um samba vencedor. Era, não fosse um pequeno contratempo. Fosse no futebol, diríamos “sapato alto”, tipo aqueles times que comemoram antes do jogo final. Uma espécie de “morrer de véspera” ao contrário, porque foi preciso esperar o final do desfile, mas não a apuração das notas, a comoção foi geral, diga-se mais, comoção temperada com raiva.
É que todas as alas estavam à beira da perfeição, as baianas elegantíssimas senhoras palacianas, rodopiavam numa sincronia digna dos girassóis balançados pelo vento. A ala dos passistas bailavam na cadência do samba enredo, pierrôs e arlequinas belissímas em azul e branco. Seguiam cinco quadrantes cada um com 25 componentes numa mistura de cores e evolução belíssimos. As alegorias embora humildes, atendiam ao apelo da mensagem a representar, eram três, carruagens reais e arcaico carro de guerra medieval. Mestre-sala e porta bandeira um glamour, um príncipe e princesa dos contos maravilhosos, a rainha de bateria com seu sambado gingante sensualizava e encantava pelos movimentos que tiravam o fôlego. Tudo estava nobre, tudo estava belo.
A bateria era o fechamento daquela serpente multicor em destaque de azul e branco. Historicamente nota dez estava linda, a indumentária alva e azul com detalhes dourados e um chapéu de trovador medieval e uns toques coordenados: breques, convenções e a paradinha tradicional que emocionava, era para o dez, indubitavelmente.
O problema é que alguém teve uma ideia ousada, hoje, dizem ”de jerico”. Dentre os instrumentistas, um se destacava pela habilidade com que impunha e tirava os mais belos sons e timbres do repinique, ele era o rei das paradinhas e das viradas de samba com aquele instrumento. E a ideia era ir além da paradinha. Ele era o Itamar, tinha por alcunha Padeco. Era um monstro no repinique, respeitado pelo mestre de bateria e todos os seus componentes. A ideia era que toda a escola parasse em frente ao palanque onde estavam os jurados que dariam as notas, a escola completa, silenciaria e Padeco faria trinta segundos de solo de repinique. Os ensaios foram perfeitos, daria muito certo lá também. E foi o que aconteceu, em parte. Chegada em frente ao palanque ao comando do mestre de bateria, a pausa, em seguida o silenciar gradativo das alas no canto, e Padeco entrou em cena, dando seu show.
Mas todos sabemos que carnaval é alegria, empolgação, ilusão. E sabemos também que a cachaça contribui para que esses elementos se potencializem. Padeco havia passado a tarde nos preparativos como todo mundo e vez em quando tomava uma que ninguém é de ferro. E nesse ritmo, chegada a noite, já estava pra lá de Bagdá. E na hora mais especial do desfile nossa estrela atravessou, sozinho, aquele que seria o solo do título. Errou tudo, começou errado e na tentativa de acertar errou mais ainda, de forma que o descompasso foi geral. Diante daquela cena, só restou ao mestre de bateria interrompê-lo e sinalizar que todos reiniciassem o batuque de antes. Mas já era tarde, o título já era. Enquanto a escola concluia o desfile, Padeco aproveitou a confusão na área de dispersão e capou o gato.
Nos dias seguintes falou-se muito sobre o ocorrido, praguejaram, maldisseram o Padeco. Não houve agressão porque Padeco sumira. Os anos seguiram, o carnaval da cidade foi esquecido pelas administrações e se resumia aos bailes e blocos. A escola de samba adormecera nas lembranças dos anos áureos, ficou só saudade. Já nem se falava mais em escola de samba, desfile, nada. Vinte anos haviam se passado daquele fatídico carnaval perdido, quando certa manhã, na esquina de César Landim, reduto da turma do futebol e do carnaval, estavam todos tomando aquela cerveja gelada, quando de repente, para um táxi, e dele sai um cara sorridente, que numa fala alegre saúda a turma: “E ai galera, quanto tempo?”. Era Padeco, estava diferente, mais forte, parecia até mais jovem. Naquela turma poucos o conheciam pessoalmente, eram crianças quando ela partira em fuga. Entretanto, um dentre eles, lembrava, e abrindo os braços em forma de protesto emenda: “Mas Padeco, tu fez a gente perder o carnaval!”
Por Francinaldo Dias. Professor, cronista, contador de “causos” e poeta
*Este texto é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cariri