A família de minha mãe é imensa. Nossa avó teve duas núpcias, do primeiro casamento de onde vem o ramo Sales, teve cinco filhos, três mulheres e dois homens. Da parte do segundo casamento com meu avô, os Silva, mais quatro, dois homens e duas mulheres, destas, uma é mamãe.
Mamãe costuma dizer que as mulheres desta família são vivedoras, tia Zefinha, a mais velha, deixou-nos aos noventas e sete anos numa manhã cinzenta. Tia Joana, chegou à iminência do centenário, foi questão de dias, noventa e nove. Já nos preparávamos para a celebração do centenário, não aconteceu, ela partiu devagarinho como quem não quer ir, mas foi.
Eu digo: — Os homens é que são morredores! Né, mamãe?
Dos quatro filhos varões de vovó Doroteia, vivo, apenas uma incógnita, Francisco, que arribara do Cariri com destino à Bahia na seca de 58. Uma vez lá, resolvera não retornar ao Ceará, ao contrário dos irmãos, que assim o fizeram. Apenas em uma oportunidade quando da morte do pai em 1981, é que aparecera por estas bandas, ao retornar à Bahia, nunca mais se ouviu nenhuma nova sobre ele e sua família. Os outros, pereceram por cá, Manoel, antes dos 70, José com 81, e Miguel com 83.
Das mulheres vivedoras, como diz minha mãe, persistem na existência a caçula Mave prestes a completar oitenta anos; mamãe com seus oitenta e três bem firme e tia Rosa, a mais velha com 93 anos. É essa quem reverencio nesta crônica.
Tia Rosa é forte, mora em São Paulo com os filhos que arribaram em busca de dias melhores ainda na década de setenta, sua história é marcada por episódios que misturam heroísmo, loucura e humor. Trata-se de uma heroína como tantas mulheres deste Sertão nosso, mulher fibrosa, voluntariosa e arrojada, ao lado de seu esposo Antônio teve 9 filhos e ainda adotou um. Sempre trabalhando lado a lado com o marido.
O heroísmo a que me refiro não se limita a sua história de luta apenas, em certa feita, no antigo Mercado Wilson Roriz na cidade do Crato, onde Mave, sua irmã mais nova possuía um boxe, houve um destes atos de heroísmo dignos do cinema. Era uma segunda feira e havia muita gente por lá, de repente, um homem ataca uma mulher e rouba-lhe a bolsa, a mulher aos berros de ladrão! Ladrão! Desperta a curiosidades das outras pessoas, contudo, ninguém age, o homem sai correndo desviando dos transeuntes nos corredores do mercado, na certa buscava a saída. Para seu azar a saída mais próxima passa em frente ao boxe de Mave, e lá estava dona Rosa que num ato impensadamente calculado, na hora em que o meliante passava por ela, ela põe-lhe o pé à frente onde o cara tropeça e vai ao chão com os pertences da vítima! Até aí já era muito, mas não satisfeita, aquela senhora de uns sessenta e cinco anos na época, salta sobre o assaltante e o imobiliza com um golpe digno do MMA. Só então alguns homens chegam e a ajudam, a polícia chega depois, e acaba por prender o ladrão e devolve a bolsa da jovem senhora.
Naquela manhã de segunda feira, muitos testemunharam a coragem e atitude de uma idosa que diante de uma situação crítica, optou por agir. Os comentários e julgamentos que inevitavelmente se seguiram eram variados, a família julgou imprudente, os permissionários acharam-na corajosa, um bêbado que presenciou a cena definiu-a como “veia macha” mas o melhor de todos veio de um cabinha de uns 8 anos, que vendo aquela senhorinha aparentemente frágil demonstrar tanta coragem e força, disse: É a vovó Maravilha!
Por Francinaldo Dias. Professor, cronista, flamenguista, contador de “causos” e poeta
*Este texto é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cariri










