Educar filhos nunca foi tarefa simples, mas, no mundo de hoje, a missão ganhou novas camadas de complexidade. O avanço da tecnologia trouxe benefícios inegáveis, mas também abriu portas para preocupações que os pais de gerações passadas nem imaginavam. Se antes a briga era para que a criança desligasse a TV, agora é para que largue o celular, saia do jogo online e olhe nos olhos de quem fala.
A tecnologia passou a ocupar todos os espaços: da sala de aula às conversas de família, das brincadeiras ao lazer. Muitos pais até recorrem a tablets e celulares para “acalmar” os filhos em momentos de estresse. O problema é que esse alívio imediato pode gerar um preço alto no futuro: crianças que não sabem lidar com o tédio, que têm dificuldades de concentração e que trocam interações reais por virtuais.
Há também o lado educacional. Nunca houve tanto acesso à informação como agora. Qualquer dúvida pode ser respondida em segundos. Isso, em tese, é positivo. Mas como ensinar aos filhos a filtrar o que realmente é confiável? O excesso de conteúdo, aliado à falta de orientação, pode transformar conhecimento em confusão.
Outro desafio é a socialização. Muitos adolescentes se dizem “conectados” porque mantêm contato com amigos online. No entanto, a qualidade dessas relações nem sempre se sustenta fora das telas. Pais se veem diante da missão de incentivar encontros presenciais, esportes e atividades coletivas que devolvam às crianças a experiência de pertencer a uma comunidade real.
No campo da disciplina, os limites também mudaram de forma. O clássico “hora de dormir” agora disputa espaço com notificações que chegam à meia-noite. O “hora de estudar” concorre com vídeos curtos que capturam a atenção de forma quase hipnótica. Regras precisam ser claras e consistentes, mas os pais muitas vezes se sentem desarmados diante da força de um algoritmo.
E como lidar com o exemplo? Não adianta exigir que o filho largue o celular enquanto o pai ou a mãe passam horas diante da própria tela. Esse talvez seja o maior nó da questão: os adultos também estão viciados. O desafio de educar, nesse caso, passa por uma autoavaliação. Afinal, não se pode cobrar equilíbrio sem dar o exemplo.
Por outro lado, negar a tecnologia não é solução. O futuro do trabalho, da comunicação e até das relações afetivas passa por ela. A saída está no equilíbrio: mostrar às crianças que o celular pode ser ferramenta, não muleta. Incentivar o uso responsável, ensinar noções de cidadania digital e cultivar momentos em que a tela fica de lado para dar lugar à conversa e à convivência.
Educar filhos em um mundo tecnológico exige mais que regras: exige presença, diálogo e coerência. É um convite aos pais para deixarem de ser apenas fiscais e se tornarem parceiros. Porque, no fim das contas, não é sobre proibir ou liberar, mas sobre guiar os filhos a crescerem como pessoas capazes de usar a tecnologia sem serem usados por ela.
Por Mirta Lourenço. Médica, professora, cronista e poetisa
*Este artigo é de inteira responsabilidade da autora, e não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cariri










