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Com quantas tariscas se faz uma gaiola? – Por J. Flávio Vieira

Colunista escreve semanalmente no Revista Cariri

25 de abril de 2020
Com quantas tariscas se faz uma gaiola? – Por J. Flávio Vieira

(Foto meramente ilustrativa)

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O velho Andrelino trepava o finalzinho da ladeira tortuosa dos setenta, com fôlego de menino presepeiro. Duro como beiço de tacho. Ainda cuidava dos muitos afazeres do sítio: o gado, o engenho, as roças, os carneiros, as galinhas. Tinha lá seus assessores, já não tantos quando o inverno da vida lhe chegou à porta. Muitos escaparam para a vila de Matozinho, tangidos pela seca ou atraídos pelas facilidades aparentes das ruas e das lojas. Outros tantos tinham descido pra São Paulo, na busca de uma terra prometida, mas jamais ofertada na sua plenitude. Entre eles, seus três filhos que, mal criaram penugem, voaram para o ardiloso sonho sulista. Dedé, como era conhecido, carregava com os poucos moradores, nos ombros, a dura labuta naquelas brenhas, um trabalho hercúleo a cada dia e que, como o Sisifo, repetia-se a cada manhã. Na juventude reclamara da aspereza da vida, das incertezas do sustento em meio à instabilidade climática. Quando o inverno da existência bateu-lhe à porta, porém, já o encontrou resignado: embalado por inércia, todas as agruras do dia a dia ganharam uma calda adocicada e sentia-se feliz. Talvez porque o trabalho terminou por preencher o vazio dos dias e das horas, como se enevoasse a estrada estreita à frente encobrindo a visão do precipício. O certo é que na casa da fazenda haviam restado apenas ele e a esposa: D. Julieta. Dedé no eito e ela nos também intermináveis trabalhos domésticos. Parecia até, para a dona de casa, que todo sentido da passagem terrestre se resumia em sujar, lavar e enxugar pratos. O casal, já arrefecido o fogo juvenil, ficara mais próximo, talvez porque Andrelino já não tivesse forças nas pernas para saltar cercas e D. Juju entendesse que os ciúmes agora eram supérfluos como os muros dos cemitérios.

A monocórdica alternância dos dias, de repente, estilhaçou-se. D. Julieta caiu doente. Um reumatismo tomou-lhe as juntas e quase a impedia de andar. Acordava entrevada, sem quase conseguir se mexer até que o sol esquentasse um pouco. Durante o resto do dia, arrastava-se pela casa, com grande sofrimento, como um animal baleado. Depois do trabalho do rezador Quinqulê, sem melhora maior, Andrelino a levou para Matozinho, onde o boticário Janjão a atendeu e receitou umas meizinhas. Juju seguiu todas as orientações: cataplasmas com pirão quente, arnica, massagens com goma fresca misturada com enxofre. D. Julieta, no entanto, só piorava e nem mais conseguia sair da cama. Andrelino desesperou-se. Janjão orientou que era melhor levá-la para capital, procurar doutor formado, os recursos médicos em Matozinho tinham chegado ao seu limite. Dedé, desesperado, resolveu seguir a orientação do boticário. Mas surgiu um problema. E a fazenda, quem cuidaria? O engenho, os bichos, a lavoura? Quem gerenciaria os trabalhadores? Juju apresentou a única opção à vista. Podiam pedir ao seu irmão, João Cacheado, para ficar tomando de conta do terreno, enquanto estivessem fora. João morava pertinho, em Bertioga, sobrevivia de rolos e nunca foi de muito trabalho (suor seu curava Covid-19, no dizer do povo dali). Andrelino não gostava muito do cunhado, justamente por conta das muitas tretas dele, algumas delas, inclusive, já o haviam vitimado. Juju, por outro lado, adorava o irmão e, se pudesse, teria entrado com um processo de canonização do meliante. O certo é que, sob contrariedade grande de Dedé, por inteira falta de alternativas menos traumáticas, convocaram Cacheado e a esposa D. Gorbelina, no que foram prontamente atendidos.

Uma semana antes da data prevista da viagem, o irmão e a cunhada de Juju chegaram. Andrelino fez uma preleção, dissecando passo a passo os extenuantes trabalhos do sítio que começavam, em geral, com o cantar dos galos e terminavam com o arrulho dos tetéus. Dedé aproveitou a semana para fazer um workshop com o cunhado. O grande entrave é que João só demonstrava um maior vigor na hora do café, do almoço e do jantar. Enxada para ele parecia instrumento de tortura. Não sabia montar, não tinha jeito com as criações. Dedé ainda reclamou com Juju, mas essa fez cara feia, andou intrigada uns dois dias: não admitia alguém tocar na honra e na idoneidade do irmão. Dedé, então, fechou os olhos: Seja o que Deus e o diabo quiserem! — pensou.

O certo é que partiram na sopa desbotada do velho Zé Odimar, em procura da capital e da saúde de Juju. E por lá ficaram uns dois meses, sob os cuidados do Dr. Fulgêncio Távora que prescreveu uns remédios à base de mercúrio, massagem com sebo de canela de veado e uns banhos de luz para Julieta. Foi como se tivessem colocado óleo Singer nas juntas dela. As dobradiças enferrujadas e gripadas tomaram tento. O casal, feliz, resolveu voltar à Matozinho depois dos cuidados e desvelos do esculápio.

Ao chegarem na fazenda, rápido Andrelino teve que engolir seco. João, o novo capataz, tinha vendido a maior parte das criações e praticamente zerou todo o estoque do paiol. Milho, arroz e feijão: passou tudo no cobre. Segundo ele, o preço de mercado estava bom e não quis perder a oportunidade. O grande problema era apresentar o dinheiro arrecadado. Cacheado enrolava, enrolava, prometia e a verba nunca apareceu. Como era de se esperar, terminou num arranca rabo terrível entre o capataz e o proprietário. João e Gorbelina voltaram para Bertioga enraivados, com cara de injustiçados e Dedé, bufando de raiva, acabou brigando com Julieta e quase apartaram os teréns.

O tempo passou, a poeira foi sentando, o casal voltou a dormir na mesma cama. Cacheado virou assunto proibitivo e o prejuízo passou a ser colocado, sorrateiramente, sob a guarda de Santo Expedito: aquele das causas impossíveis. As coisas estavam calmas, o cotidiano novamente tomou conta das almas e não mais lhes deu margens para assuntos extracurriculares. Até uns seis meses depois, quando o poeta mais popular de Matozinho, Emílio Alves Ferreira, divulgou, de boca em boca, um versinho. Era uma carta aparentemente escrita por Andrelino para Cacheado, desculpando-se e pedindo que ele voltasse para tomar conta da fazenda que tinha tão bem administrado.

“Tu partiu tão de repente!
Depois de tão bem cuidar
Da fazenda, meu gerente,
E nem pude te agradar!

Nem deu tempo de acertar
A venda do mi, dos zebu
E eu pensei, se for oiá,
Deve ter troco pra tu!

Volta, João, pro teu cunhado!
A coisa aqui tá mió
Se vier te dô meu gado
E a chave do paiol!”

Até ontem, D. Julieta estava esperando um encontro com o poeta de Matozinho para ele aprender com quantas tariscas é que se faz uma gaiola. A informação é que Emílio viajou para Wuhan: lá estaria muito mais seguro!

Por J. Flávio Vieira, médico e escritor

*Este texto é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cariri

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