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Boate Kiss: todos os quatro réus são condenados por mortes no incêndio

Penas variam entre 18 e 22 anos; habeas corpus impediu prisão imediata

10 de dezembro de 2021
Boate Kiss: todos os quatro réus são condenados por mortes no incêndio

Réus são condenados a penas que variam entre 18 e 22 anos de prisão (Foto: Reprodução/YouTube)

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O Tribunal do Júri condenou os quatro réus acusados pelo incêndio na boate Kiss, que matou 242 pessoas e deixou outras 636 feridas.

Foram sentenciados por dolo eventual, ou seja, quando, mesmo sem desejar o resultado, se assume o risco de matar, os dois sócios da boate —Elissandro Callegaro Spohr, conhecido por Kiko, e Mauro Londero Hoffmann— e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira —o produtor Luciano Bonilha Leão e o vocalista, Marcelo de Jesus dos Santos.

As penas foram lidas pelo juiz Orlando Faccini Neto, mas não na íntegra, sendo o resultado anexado na totalidade no processo. Ele considerou “elevada a culpabilidade dos réus”.

As penas foram definidas assim:

• Elissandro Spohr – 22 anos e seis meses de prisão
• Mauro Hoffmann – 19 anos e seis meses de prisão
• Luciano Bonilha – 18 anos de prisão
• Marcelo de Jesus – 18 anos de prisão

Ainda cabe recurso, mas o regime inicial é fechado. O juiz havia pedido a prisão imediata, com dispensa de algemas, para que eles “fossem conduzidos com toda a dignidade” para a cadeia, mas em seguida recebeu um habeas corpus preventivo, feito pela defesa de Spohr, e suspendeu a execução da sentença para todos os condenados, por entender que deveria ser estendido o benefício a todos igualmente.

Agora, a Câmara Criminal deve apreciar o mérito do habeas corpus. A decisão é tomada entre três desembargadores. Ainda não há data para isso acontecer, mas até lá os condenados não serão presos. Jader Marques, defensor de Spohr, não quis se manifestar. A reportagem ainda não conseguiu contato com os outros advogados para comentar o resultado final.

Após a leitura, familiares e sobreviventes abraçaram e choraram com os promotores de Justiça, aplaudindo a sentença.

“Achei que eu não ia conseguir chegar aqui hoje. Eu prometi que não ia chorar, mas agora eu vou berrar, porque eu me segurei nesses dez dias”, disse a dona de casa Maria Aparecida Neves, que perdeu filho na tragédia. “Deus é justo, Deus é pai e não é padrasto. A justiça aconteceu.”

O julgamento estava em andamento havia dez dias em Porto Alegre, a 289 km de distância de Santa Maria, onde ocorreu a tragédia. O corpo de jurados foi formado por seis homens e uma mulher.

Inicialmente, o julgamento tinha previsão de durar cerca de 15 dias, mas a dispensa de testemunhas acabou encurtando a fase de depoimentos.

Familiares de vítimas da boate Kiss ouvem sentença (Foto: Hygino Vasconcellos/UOL)

O papel de cada condenado na tragédia
As penas definidas foram diferentes devido à atuação de cada um no incêndio da boate Kiss.

Spohr era dono da casa noturna e foi dele a decisão de colocar a espuma no teto. Inflamável, ela acelerou a propagação das chamas e ainda liberou substâncias tóxicas. Ele disse durante o julgamento não saber que o material não era adequado para isolamento acústico.

Hoffmann também era sócio na boate e foi responsabilizado pelas mesmas questões, mas parte de sua defesa foi acatada, em que ele disse que não estava à frente da tomada das decisões na reforma.

Bonilha comprou o artefato e acionou seu funcionamento durante o show. Marcelo dos Santos carregava na mão o produto que iniciou o fogo no teto. Ambos disseram já terem usado diversas vezes o material pirotécnico e que nunca havia acontecido nada semelhante.

Relembre o julgamento
Ao longo desses dias, o júri foi marcado por relatos fortes, momentos de tensão e de revolta. No primeiro dia, Bonilha chegou ao Fórum de Porto Alegre gritando “não sou assassino” e, em seguida, passou mal, sendo levado para a enfermaria do local.

Primeira a depor, a ex-funcionária da Kiss Kátia Giane Pacheco disse que ao tentar sair da boate acabou desmaiando e, ao acordar, estava embaixo de outras pessoas. “Tentaram me retirar, mas não conseguiram e simplesmente me largaram. E iam tentar pegar outra pessoa, só que nisso eu agarrei nas pernas dessa pessoa para conseguir sair dali.” Ela ficou 46 dias internada no hospital e teve 40% do corpo queimado. “Queria viver.”

O terceiro dia de julgamento foi marcado por uma discussão entre advogados, promotor e até com o juiz. A gritaria e o bate-boca no tribunal ocorreram em dois momentos diferentes, com uma diferença de 20 minutos entre cada situação.

Os relatos fortes prosseguiram nos dias seguintes. Delvani Brondani Rosso, de 29 anos, causou comoção entre o público. Ele contou que havia muitas pessoas no local e, ao perceber que não conseguiria sair, começou a se despedir da sua família.

No oitavo dia, cinco pessoas foram ouvidas. A primeira delas foi o ex-prefeito de Santa Maria Cezar Schirmer, que desqualificou a investigação policial que apurou o incêndio. As declarações dele provocaram a saída de famílias que estavam na plateia.

Após o político, prestaram depoimento Geandro Kleber de Vargas Guedes e Fernando Bergoli. Em seguida, passou a ser ouvido promotor de justiça Ricardo Lozza, que disse que não houve recomendação do MP para uso da espuma.

No final do oitavo dia, prestou depoimento o dono da boate, Elissandro Spohr. O empresário chorou bastante, pediu para ser preso e chegou a se virar a cadeira e falar diretamente para a plateia, mas havia poucos familiares na sala.

No nono dia, foram ouvidos os outros três réus. Bonilha pediu sua condenação. “Mesmo eu sabendo que sou inocente, para tirar as dores dos pais, me condenem.” Já Mauro Hoffmann disse que não se sentia dono da Kiss, já que era sócio investidor.

Por último, foi ouvido o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos. Na sequência, começou a fase de debates pelo Ministério Público que mostrou imagens de corpos, espuma queimando e vídeo com pânico.

Fonte: UOL

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