Nem vapor, nem sachê, nem tabaco aquecido: a nicotina é tóxica para o coração e os vasos sanguíneos em qualquer forma de consumo. A conclusão é de um artigo internacional publicado nesta quinta-feira (18) na revista científica European Heart Journal, que reúne décadas de evidências sobre os efeitos da substância no sistema cardiovascular.
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Consenso científico sobre os riscos
O trabalho foi liderado por pesquisadores do University Medical Center Mainz, na Alemanha, com a participação de especialistas de centros de pesquisa da Europa e dos Estados Unidos. Os autores afirmam que há hoje consenso científico de que a nicotina, independentemente do meio de consumo, causa danos cardiovasculares.
Nicotina como toxina cardiovascular
De acordo com o estudo, a nicotina:
• ativa o sistema nervoso simpático;
• eleva a pressão arterial;
• aumenta a rigidez das artérias; e
• causa disfunção do endotélio, a camada interna dos vasos sanguíneos, considerada marcador precoce de doença cardiovascular.
Os efeitos aparecem em diferentes produtos, incluindo cigarros tradicionais, cigarros eletrônicos (vapes), tabaco aquecido, narguilé e bolsas de nicotina usadas na boca.
“A nicotina não é um estimulante inofensivo; é uma toxina cardiovascular direta. Em cigarros, vapes, tabaco aquecido e sachês de nicotina, observamos de forma consistente aumento da pressão arterial, danos aos vasos sanguíneos e maior risco de doenças cardíacas. Nenhum produto que forneça nicotina é seguro para o coração”, afirma o pesquisador Thomas Münzel. “A narrativa da ‘nicotina mais segura’ precisa acabar.”
Jovens no centro da nova epidemia
O artigo chama atenção para o crescimento acelerado do uso de vapes e bolsas de nicotina entre adolescentes e adultos jovens. Dados reunidos na revisão indicam que até 75% dos jovens que utilizam cigarros eletrônicos nunca haviam fumado antes, o que contraria o argumento de redução de danos.
Segundo os autores, sabores atrativos, marketing em redes sociais e brechas regulatórias impulsionam uma nova geração de dependentes de nicotina, com potenciais impactos de longo prazo na saúde cardiovascular.
Exposição passiva também preocupa
Outro ponto destacado é o risco da exposição passiva à fumaça e aos aerossóis. Mesmo exposições breves podem provocar alterações vasculares mensuráveis em não usuários, especialmente crianças, gestantes e pessoas com doenças cardíacas prévias. Diante disso, o estudo defende a ampliação das leis antifumo para incluir cigarros eletrônicos, tabaco aquecido e narguilé.
Metodologia e limitações
O artigo é uma revisão sistemática e relatório de consenso, baseada na análise de estudos epidemiológicos, ensaios clínicos, experimentos laboratoriais e dados globais sobre carga de doença. Os autores reconhecem limitações, como a investigação ainda em curso dos efeitos de longo prazo de produtos mais recentes e a dificuldade de isolar impactos quando há uso combinado de diferentes formas de nicotina.
Ainda assim, o grupo afirma que o conjunto das evidências é suficiente para uma conclusão clara: não existe produto com nicotina que seja seguro para o sistema cardiovascular.
Chamado à regulação
Os pesquisadores defendem medidas regulatórias como banimento de sabores, tributação proporcional ao teor de nicotina, embalagens padronizadas, restrições à publicidade digital e integração da prevenção ao uso de nicotina nas políticas de saúde cardiovascular. Sem ação regulatória, alertam, o mundo pode enfrentar “a maior onda de dependência de nicotina desde os anos 1950”.
Por Heloísa Mendelshon










