Foi há muitos anos. Início dos anos 2000. Chegou na cidade um daqueles circos populares, o mais poético tipo de circo. Com sua colorida lona remendada e arquibancada de tábuas. Mas era um circo e por isso mesmo digno de toda a euforia que se desencadeou no lugar. Já não havia animais, a proibição de bichos em circos foi uma das melhores coisas que fizeram, aquilo era um sofrimento para eles. Naquele circo havia quase tudo: trapezistas, bailarinas, equilibristas, mágico, anões e palhaços, para ser franco, dois. Um tão sem graça, mas tão sem graça que nem parecia um palhaço, suas piadas provocavam um riso que mais parecia de pena por parte do público. O outro provocava um riso mais natural na gente! Foi a penúltima vez que fui a um circo.
A última vez que fui a um circo as imagens ainda estão vivas em minhas retinas, e nunca haverão de morrer enquanto eu viver, não pelo espetáculo em si, embora muito belo e sofisticado; trapezistas, malabaristas, mágicos, até globo da morte.
Mas são os clowns que nos levam até àquele lugar mágico, e foi em busca de tais artistas que me dispus a ir mais uma vez a um circo. Sou um homem de riso fácil, meio bobo até, contudo não foram as risadas provocadas pelos palhaços daquele Circo Portugal, era esse o nome do circo, no qual fora.
O que me eternizou aquele espetáculo de som e imagens foi o fato de que eu, além de meus filhos, Ana e Leon, ainda crianças, tive a satisfação de levar também o Joquinha. Seu nome era Joel, era ele um sobrinho de meu tio da parte de sua esposa, já ouvia pouco e já não enxergava, por conta das sequelas que um CA em metástase que o acometia.
Ainda escuto a sua voz de anjo, o anjo Joel, a cada piada e trejeitos dos palhaços, seguia-se o riso da plateia, e ele se juntava ao coro, embora não visse e escutasse pouco. Aquela criaturinha alada soltava uma gargalhada daquelas espontâneas de quem está de bem com a vida e não enfrentava nenhum problema.
Dava a risada junto com todo o público, em seguida, virava para o lado onde eu estava, tocava em mim e pedia para eu contar o que o palhaço havia feito e havia dito. Eu contava e vinha uma segunda risada destas gostosas de se ouvir de uma criança. Uma segunda risada ratificando a primeira, uma segunda risada de quem soubesse o fim e já não haveria como sorrir, uma risada de quem sabia se aliviar da dor.
Tive outras oportunidades de ir a outros circos, muitas outras, mas não o fiz. Tenho medo de que um novo espetáculo faça-me esquecer daquela noite de circo tão especial. Não foi o circo, embora fosse bom, mas não foi o circo, nem seus trapezistas e bailarinos e anões e mágicos, nem muito menos os palhaços por quem tenho verdadeira devoção, não foram eles que fizeram aquela noite especial, única. Foi um anjo, Joel. Na noite em que Joquinha foi pela primeira e última vez a um circo, foi ele que encheu de poesia a minha vida.
Por Francinaldo Dias. Professor, cronista, flamenguista, contador de “causos” e poeta
*Este texto é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cariri










