Luis Fernando Verissimo se despede de nós, mas deixa um silêncio cheio de palavras. Paradoxal? Talvez. Mas é exatamente esse o efeito de sua obra: fazer o óbvio soar extraordinário, transformar o cotidiano em literatura e dar graça até ao que parecia sem graça. Não à toa, suas crônicas povoaram jornais, escolas e conversas de mesa de bar por décadas.
Poucos escritores conseguiram esse feito de falar com tanta gente de diferentes idades, origens e estilos de vida. Verissimo escrevia para todos, sem pretensão de soar erudito, mas também sem abrir mão da inteligência. Sua informalidade herdada do pai, Erico, foi temperada com humor fino, ironia certeira e uma sensibilidade única para ler o Brasil — e, sobretudo, os brasileiros.
Não era só humor. Era crítica social disfarçada de riso. Quando falava da “Velhinha de Taubaté”, na verdade estava revelando o autoengano de um país inteiro. Quando criava o “Analista de Bagé”, apontava as contradições do nosso jeito de ser. E quando se aventurava com Ed Mort, era como se nos convidasse a rir de nossos próprios clichês.
Verissimo tinha o dom de fazer parecer simples o que era, na verdade, muito sofisticado. Suas crônicas curtas cabiam em meia página de jornal, mas carregavam um mundo inteiro de referências, observações e humanidade. Ele sabia que a vida não é feita apenas de grandes acontecimentos, mas também dos detalhes pequenos, aqueles que normalmente passariam despercebidos.
Há escritores que buscam a eternidade em grandes epopeias, e há aqueles que a encontram nos gestos cotidianos. Verissimo escolheu o segundo caminho. Por isso será lido ainda por muitos e muitos anos. Ele nos ensinou que a grandeza da literatura não precisa de pedestais: basta olhar para o dia a dia com um pouco de ironia e muito afeto.
E, mesmo sendo um dos maiores nomes da cultura brasileira, Verissimo permaneceu um homem discreto. Preferia a casa no bairro Petrópolis ao glamour das luzes. Gostava do jazz e da rotina metódica, longe dos holofotes. Talvez tenha sido justamente essa simplicidade que o aproximou tanto de seus leitores, que o sentiam quase como alguém da família.
A morte de Luis Fernando Verissimo é uma perda irreparável, mas seu legado é uma presença constante. Está nos livros que continuam a circular pelas escolas, nas tirinhas que ainda arrancam risos, nas adaptações para a TV que permanecem na memória coletiva. Mais do que isso: está no jeito como aprendemos a rir de nós mesmos e a enxergar beleza até nas nossas contradições.
Ele se foi, mas deixou um Brasil um pouco mais leve, mesmo em tempos pesados. E, no fim das contas, talvez esse tenha sido seu maior feito: provar que o humor, quando aliado à inteligência e à sensibilidade, é uma das formas mais nobres de literatura. Luis Fernando Verissimo não morreu — apenas virou crônica.
Por Mirta Lourenço. Médica, professora, cronista e poetisa
*Este artigo é de inteira responsabilidade da autora, e não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cariri










