Era o ano de 2069. Matozinho já virara uma cidade modernosa. Tinha mais de vinte ruas, uma agência bancária e até a igreja de N. S. dos Desafogados ganhara uma segunda torre que vigiava a vila, do alto, como um periscópio. A novidade explodiu, justamente, quando começaram os trabalhos para estender os trilhos e dormentes da Estrada de Ferro que chegaria até Matozinho. Os matozenses, gabolas, até já cantavam vantagem quando viram a imponente estação ferroviária da RFFSA começar a se erguer na entrada da cidade. Mas aí aconteceu o fenômeno. Ao derrubar uma barreira próxima ao açude do Sabugo, deram com uma descoberta arqueológica comparável à Descoberta da Tumba de Tutancâmon. Como não existiam mais testemunhas vivos que desvendassem os meandros da descoberta, foram ter com a única possibilidade de aclarar o mistério. Representantes da companhia ferroviária e o prefeito Umercindo Piau procuraram o velho Xilderico Penteado, já centenário, mas com uma cabeça melhor do que de alguns meninos que ainda mijavam nos coeiros como ele.
Xilderico assuntou, assuntou, olhando para o cimo da Serra da Jurumenha como quem procura disco voador. Passados alguns minutos, cobrou sentido e explicou com uma voz semitonante própria das mais de dez décadas que o perseguiam:
— Pelo que me alembro, acho que o que vocês acharam é resultado do Primeiro Campeonato Matozense de Esconde-Esconde, acontecido no finzinho de 2021. Eu, rapazote, participei, me atrepei numa Timbaúba lá pras bandas de Bertioga, mas me encontraram uns três dias depois, pois tive que descer pra procurar alguma coisa pra comer. O vencedor foi Chico de Tudinha que se escondeu dentro de uma cacimba e só saiu quinze dias depois, sobrevivendo com umas bananas que tinha levado e bebendo água no porão, feito caçote. No segundo campeonato, em 2022, ele se escafedeu, escondeu-se tão bem escondido que ninguém nunca mais encontrou. O que foi mesmo que vocês acharam, na barreira que caiu perto do açude do Sabugo?
O pessoal da RFFSA, então, mostrou as fotos. Tinham encontrado numa espécie de túnel, uma caveira de pé, em posição de sentido, como se estivesse em Parada de 7 de Setembro, e no pescoço dependurada uma fita, tendo na ponta uma Medalha dourada e lá escrito:
— Campeão de Esconde-Esconde. II Campeonato Municipal Presidente Bolsonaro– Matozinho/2022.
Xilderico, então, com olhos brilhantes, examinando as fotografias, concluiu. Finalmente desvendado o mistério do desparecimento de Chico, que já durava mais de quarenta anos! Ele era um craque no esporte que abraçara, tanto que conseguiu ficar escondido por tanto tempo, sem ninguém dá notícia do homem, nem Tudinha!
O prefeito Umercindo Piau agradeceu a ajuda valiosa do velho Xilderico na elucidação do caso. Mas tinha uma curiosidade. Quem diabo era esse tal de Presidente Bolsonaro que dava nome ao campeonato e o porquê de tamanha honraria?
Xilderico, puxou pela memória e esclareceu:
— Era um presidente do Brasil meio tantã, gabola, zoadento, caga-goma e metido a cavalo-do-cão. Batizaram o Campeonato de Esconde-Esconde com o nome dele, porque, depois que ele perdeu uma eleição, levou uma surra danada e saiu com o rabo entre as pernas e ganindo: Cãin, Cãin, Cãin… desapareceu, entrou num buraco e ninguém nunca mais viu o cara. Ficou mais escondido que mulher de pistoleiro que vira quenga de pastor.
Por J. Flávio Vieira, médico e escritor. Membro do Instituto Cultural do Cariri (ICC)
*Este texto é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cariri










