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Dipirona: o que é, para que serve, quando tomar e quem deve evitar

O fármaco é tido como bem tolerado e há muitos estudos científicos que, ao longo de quase um século, atestam sua segurança

25 de outubro de 2022
(Foto: peoplecreations/Freepik)

(Foto: peoplecreations/Freepik)

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Presente no mercado há quase 90 anos, a dipirona, também conhecida como metamizol ou dipirona sódica, é presença certa em toda farmácia caseira e é muito usada para combater a febre e a dor.

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O que é dipirona?
Trata-se de um MIP (Medicamento Isento de Prescrição) e, por isso, você pode comprá-lo na farmácia sem receita médica. Nos livros de farmacologia esse medicamento é classificado como um AINE (Anti-Inflamatório Não Esteroidal), mas por ter um mecanismo de ação com baixo poder de combater as inflamações, a dipirona é definida como:

• Analgésico (alivia a dor moderada a intensa);
• Antitérmico (combate a febre, com boa ação nas acima de 38 graus – febres altas).

Por que a dipirona não é usada nos EUA?
O fármaco é tido como bem tolerado e há muitos estudos científicos que, ao longo de quase um século, atestam sua segurança.

Contudo, na década de 1970, foi identificado um potencial risco de agranulocitose, ou seja, o uso da dipirona foi relacionado a uma grave redução do sistema de defesa do corpo, o que fez com que ela fosse banida dos Estados Unidos, Japão e Austrália, bem como em alguns países da União Europeia, o que até hoje prevalece.

Apesar disso, a comunidade médica e farmacêutica sugere que tal situação apenas atende a uma questão de mercado, especialmente porque hoje são inúmeros os estudos científicos que já observaram que esse tipo de evento é raro e dependente de fatores como predisposição genética, altas doses ou exposição contínua. A explicação é de Fernanda Cristina Ostrowski Sales, farmacêutica e bioquímica, docente da faculdade de Medicina, Farmácia e Odontologia da PUC-PR.

É importante lembrar que não cabe apenas ao governo, à indústria, médicos e farmacêuticos a prevenção de efeitos adversos como esse. O uso racional do medicamento, ou seja, utilizá-lo de forma apropriada, na dose certa e por tempo adequado é também uma responsabilidade de quem o consome —no caso, as pessoas em geral. A instrução é da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Para que serve a dipirona?
Mesmo sendo um remédio que não precisa de receita médica, lembre-se que nenhum medicamento é 100% seguro. Por isso, é importante utilizar a dipirona somente para aliviar os sintomas a seguir:

• Dor de cabeça comum ou tensional;
• Enxaqueca;
• Mal-estar da gripe comum;
• Dor decorrente de traumas (batidas);
• Febre;
• Dor oncológica;
• Dor após cirurgia;
• Dor de origem odontológica;
• Cólicas intestinal, renal ou menstrual.

Conheça as apresentações disponíveis
Os medicamentos de referência, cujo princípio ativo é a dipirona, são conhecidos como Novalgina, Magnopyrol entre outros. Mas você também pode encontrar as versões genéricas que, igualmente, terão as seguintes apresentações:

• Gotas – solução oral – 500mg/ml
• Xarope – solução oral – 50mg/ml
• Comprimidos – (comuns ou efervescentes) 500 ou 1000mg
• Supositórios – 300mg
• Injetável – geralmente utilizada somente em hospitais

É importante respeitar as dosagens indicadas pelo fabricante, médico, farmacêutico ou dentista e sempre iniciar o uso desse medicamento a partir das menores dosagens disponíveis, deixando as maiores para situações mais graves.

“E cuidado com as associações”, aconselha Denize Ornelas Pereira Salvador de Oliveira, médica de família e comunidade. “Existem medicamentos que associam a dipirona com outros fármacos, como a prometazina [Lisador]. Essa combinação dá sono. Se o objetivo é o controle da dor e da febre, prefira a dipirona sozinha”, sugere a especialista.

Entenda como a dipirona funciona
A dipirona possui excelente farmacocinética, ou seja, independentemente da apresentação, ela é rapidamente absorvida e distribuída pelos tecidos, até que chega a seu alvo, efetua sua ação, se transforma em um produto excretável (metabolização) e finaliza sua tarefa, saindo do corpo pela via renal.

Quanto à farmacodinâmica, ou mecanismo de ação, ele age bloqueando os processos orgânicos que causam a dor e a febre (enzima COX2).

O tempo médio de espera para se beneficiar de seus efeitos é de 30 a 60 minutos, o que tem duração de aproximadamente 4 horas.

Quais são as vantagens e desvantagens do seu uso?
Entre as vantagens da dipirona, destaca-se o excelente efeito analgésico e antifebril, cuja potência é especialmente útil nos quadros pós-operatórios e na presença de febre alta, quando há risco de convulsão.

Além disso, é bem tolerada pelo sistema gastrointestinal e alivia os sintomas com rapidez.

A desvantagem é que ela não pode ser usada por pessoas alérgicas a algum dos seus componentes. A depender do caso, outros fármacos, com ações semelhantes, poderão ser utilizados. Um exemplo deles é o paracetamol.

Saiba quem deve evitar a dipirona
Fale com o farmacêutico ou seu médico antes de usar a dipirona se você já teve alguma reação alérgica relacionada aos AINEs ou outro analgésico, ou caso tenha conhecimento de que alguém de sua família já teve esse tipo de problema.

Indivíduos que se encaixem em algumas das condições abaixo também devem evitar o medicamento. Confira:

• Pessoas com histórico de alergia a algum componente da fórmula;
• Indivíduos alérgicos a outros analgésicos (hipersensibilidade cruzada);
• Hipotensos (pacientes com pressão baixa);
• Bebês com menos de 3 meses ou menos de 5 kg.

Crianças e idosos podem usá-la?
Sim. A dipirona é bem tolerada por crianças e idosos. No entanto, no caso dos pequenos, para cada faixa etária é indicada uma forma farmacêutica (suspensão, xarope, supositório), além de dosagens específicas que, para serem mais efetivas, deverão ser personalizadas.

Fale com um médico ou farmacêutico para saber a melhor forma de ministrar a dipirona para evitar o consumo exagerado ou insuficiente.

Saiba que caso a criança tenha menos de 3 meses de vida e mesmo até 1 ano de idade, a presença de febre alta é um sinal de alerta que deve ser imediatamente investigado. Vá ao pronto-socorro o mais rápido possível.

Quanto aos idosos, a dose da dipirona corresponderá à dos adultos a depender de seus estados gerais de saúde. No caso de pessoas debilitadas, um médico deverá avaliá-los para definir a terapia (dose e tempo de uso). De modo geral, o medicamento é seguro para esse grupo.

Estou grávida, posso usar dipirona?
Não. O fármaco é contraindicado para grávidas e lactantes (mulheres que amamentam). A razão para isso é que há risco de malformações cardíacas e prolongamento do trabalho de parto. Portanto, ele deve ser evitado tanto no começo da gravidez, como após a 30ª semana de gestação.

A dipirona é eliminada no leite materno e, até o momento, não existem estudos que comprovem a segurança do uso do medicamento por esse grupo. Assim, o conselho dos especialistas é nunca esquecer de dizer ao farmacêutico, ao médico e ao cirurgião dentista que se está amamentando.

O médico disse que tenho dengue. Posso tomar dipirona?
Sim. O medicamento é um aliado importante no combate da febre alta típica dessa doença. “A recomendação é que se evite o uso do ácido acetilsalisílico, dada a sua ação. Ela reduz a atividade das plaquetas do sangue, o que eleva o risco de hemorragia”, adverte Cláudia Cristina Pereira de Araújo, farmacêutica atuante em vigilância em saúde da Prefeitura de São Paulo.

Quanto ao paracetamol, ele só deve ser utilizado sob orientação médica e a depender do quadro de dengue que se apresenta. Na dose e tempo errados, o fármaco pode acarretar lesão hepática.

Qual é a melhor forma de consumir a dipirona?
Os comprimidos devem ser ingeridos preferencialmente com água. Leite e suco também são boas alternativas, mas evite bebidas alcoólicas.

Já a suspensão deve ser administrada em gotas. Porém, como o medicamento é muito amargo, diluí-las em um pouco de água facilita o processo.

Existe uma melhor hora do dia para usar dipirona?
Não. O importante é que ele seja ingerido na forma como indicado pelos profissionais das áreas da saúde (médico, farmacêutico ou dentista), o que poderá corresponder a uma frequência de 8 em 8 horas, 6 em 6 horas ou 4 em 4 horas, a depender da gravidade do quadro.

“Há, porém, uma restrição: o consumo nunca deve ser superior a 3 dias [o máximo admitido são 5 dias], salvo prescrição médica”, adverte Marcelo Polacow, farmacêutico e vice-presidente do CRF-SP.

“Se for o caso de automedicação, no momento da compra e antes de começar a tomar, fale com o farmacêutico, especialmente quando a queixa é de um idoso ou de uma criança. Pode ser até o caso de não tomar o remédio e, sim, buscar ajuda médica imediata”, completa Polacow.

O que fazer quando esquecer de tomar dipirona?
Espere até a hora da dose seguinte e reinicie o uso do medicamento. É desaconselhado tomar dois comprimidos (ou gotas em dobro) de uma vez para compensar a dose que foi esquecida.

Se você é daqueles que sempre se esquecem de tomar seus remédios, use algum tipo de alarme para lembrar-se.

Quais são os possíveis riscos e efeitos colaterais da dipirona?
Embora a dipirona seja considerada de boa tolerância em todas as faixas etárias, os principais efeitos colaterais já observados são:

• Reação alérgica;
• Desconforto abdominal;
• Queda da pressão arterial;
• Dificuldade para respirar;
• Arritmia;
• Agranulocitose (mais grave e raro).

Como saber que o uso da dipirona deve ser interrompido?
Por vezes, logo após o uso do medicamento, podem ser identificados sinais de piora de seu estado geral. Nessas situações, interrompa o consumo do medicamento e procure ajuda médica imediatamente se você observar os seguintes sinais e sintomas:

• Queda abrupta da pressão;
• Coceira, ardor, vermelhidão, inchaço, urticária;
• Falta de ar.

Interações alimentares
Até o momento não se conhece a interação do medicamento com algum tipo de alimento.

Posso tomar dipirona com outros remédios?
A dipirona não combina com alguns medicamentos e ela pode interagir seja reduzindo seu efeito, seja acarretando reações indesejadas. Fique atento se você faz uso contínuo dos seguintes medicamentos:

• Acido Acetilsalicílico – anti-inflamatório, analgésico e inibidor de agregação plaquetária, como a Aspirina e o AAS;
• Anticoagulantes – evitam a formação de coágulos no sangue, como a Varfarina;
• Antibióticos – atuam sobre os micro-organismos inibindo seu crescimento ou causando sua destruição como o Ofloxacino, entre outros;
• Corticoides – anti-inflamatórios e imunosupressores potentes como a Prednisolona;
• Imunossupressores – medicamentos usados após transplantes ou em doenças autoimunes. Um exemplo é a Ciclosporina;
• Anti-hipertensivos – atuam na redução da pressão arterial, como o Losartana;
• Antidepressivos: agem nos transtornos de humor, como a Bupropiona;
• Antimetabólicos – usados no tratamento de células malignas e doenças autoimunes como a artrite reumatóide, como o Metotrexato.

E atenção: embora, até o momento, desconhecem-se interações com fitoterápicos, lembre-se que nenhum remédio é 100% seguro, inclusive os fabricados à base de plantas. É importante falar com um médico, farmacêutico ou até o dentista antes de usar esse medicamento se você faz uso contínuo deles ou mesmo de suplementos e vitaminas.

Em casa, coloque em prática as seguintes dicas:

• Fique atento à validade do medicamento, que é de 24 meses. Considere que, após aberto, essa validade é ainda menor;
• Mantenha o medicamento sempre dentro da própria embalagem e nunca descarte a bula até terminar o tratamento;
• Leia atentamente a bula ou as instruções de consumo do medicamento;
• Ingira os comprimidos inteiros. Evite esmagá-los ou cortá-los ao meio – eles podem ferir sua boca ou garganta;
• Evite o uso prolongado do medicamento. No caso da dipirona, o tempo máximo de consumo é de 3 dias. A exceção é a indicação médica de uso prolongado. Quando o sintoma não melhora, apesar da medicação, é preciso investigar. Procure um médico sem demora;
• Prefira comprar remédios nas doses justas para o uso indicado para evitar sobras;
• Respeite o limite da dosagem diária indicada na bula;
• Escolha um local protegido da luz e da umidade para armazenamento. Cozinhas e banheiros não são a melhor opção. A temperatura ambiente deve estar entre 15°C e 30°C;
• Guarde seus remédios em compartimentos altos ou trancados. A ideia é dificultar o acesso às crianças;
• Procure saber quais locais próximos da sua casa aceitam o descarte de remédios. Algumas farmácias e indústrias farmacêuticas já têm projetos de coleta;
• Evite descarte no lixo caseiro ou no vaso sanitário. Frascos vazios de vidro e plástico, bem como caixas e cartelas vazias podem ir para a reciclagem comum.

O Ministério da Saúde mantém uma cartilha (em pdf) para o Uso Racional de Medicamentos, mas você pode complementar a leitura com a Cartilha do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos – FIOCRUZ) (em pdf). Quanto mais você se educa em saúde, menos riscos você corre.

Fontes consultadas: Fernanda Cristina Ostrowski Sales, farmacêutica, bioquímica, mestre em Tecnologia em Saúde pela PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) e docente atuando na disciplina de Farmacologia dos cursos de Medicina, Farmácia e Odontologia da mesma instituição; Marcelo Polacow, farmacêutico e mestre e doutor em Farmacologia, vice-presidente do CRF-SP (Conselho Regional de Farmácia em São Paulo); Cláudia Cristina Pereira de Araújo, farmacêutica atuante em vigilância em saúde da Prefeitura de São Paulo e bioquímica com especialização em Saúde Pública pela USP; Denize Ornelas Pereira Salvador de Oliveira; médica de família e comunidade, com mestrado em Saúde Pública pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), foi diretora da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade). Revisão Técnica: Cláudia Cristina Pereira de Araújo.

Referências: Ministério da Saúde; Cartilha para a promoção do uso racional de medicamentos. Ministério da Saúde. 2015; ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária); Cartilha Uso Correto de Medicamentos, Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos FIOCRUZ). 2011; Rashmi R. Shah. Metamizole (dipyrone)?induced agranulocytosis: Does the risk vary according to ethnicity? J Clin Pharm Ther. 2018; Andrade S, Bartels DB, Lange R, Sandford L, Gurwitz J. Safety of metamizole: a systematic review of the literature. J Clin Pharm Ther. 2016; Irina Nikolova et alli. Metamizole: A review profile of A well-known “forgotten” drug. Part I: Pharmaceutical and nonclinical profile. Biotechnol. & Biotechnol. 2016; Thomas Kötter, Bruno R. da Costa et alli. Metamizole-Associated Adverse Events: A Systematic Review and Meta-Analysis. PlosOne. 2015; Irina Nikolova et alli Metamizole: A Review Profile of a Well-Known “Forgotten” Drug. Part II: Clinical Profile, Biotechnol. & Biotechnol. 2013.

Fonte: VivaBem/UOL

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