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‘Abstinência de telas’: Como conter o uso excessivo de eletrônicos por crianças na pandemia

Pesquisa revela que esse aumento na utilização vai deixar sequelas e modificar hábitos, mesmo agora que muitas crianças estão retomando as aulas presenciais e as atividades presenciais

2 de outubro de 2021
Uso de eletrônicos ficou tão embrenhado no nosso cotidiano que métricas como tempo de tela deixaram de ter o mesmo sentido (Foto: Getty Images)

Uso de eletrônicos ficou tão embrenhado no nosso cotidiano que métricas como tempo de tela deixaram de ter o mesmo sentido (Foto: Getty Images)

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O verão recente nos EUA, entre junho e agosto, foi um pequeno alívio para muitas famílias americanas depois de meses de lockdown e restrições rígidas por conta da Covid-19: os casos da doença estavam em queda naquele período, as crianças estavam de férias e o calor permitia algumas atividades externas.

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No entanto, dois terços dos 1,4 mil pais de crianças americanas entrevistados pelo Laboratório de Bem-Estar Digital do Hospital Infantil de Boston disseram que, nesse verão, seus filhos usaram ainda mais aparelhos eletrônicos do que nos meses anteriores (quando estavam em ano letivo, estudando à distância) e também mais do que no verão anterior, pré-Covid-19.

O aumento no uso de telas tem sido necessário em muitas famílias durante a pandemia, para permitir que as crianças continuassem estudando, mantendo contato com parentes e amigos e também se entretendo – sobretudo no período crítico de quarentena e de escolas fechadas.

Mas a pesquisa americana é um dos sinais de que esse aumento vai deixar sequelas e modificar hábitos, mesmo agora que muitas crianças estão retomando as aulas presenciais e as atividades presenciais.

Nem todas essas sequelas são necessariamente ruins (veja mais abaixo), mas a dificuldade em tirar as crianças de diante dos eletrônicos já tem despertado debates entre pais e especialistas, a respeito de como estabelecer novos limites saudáveis.

Um desses especialistas, Keith Humphreys, professor da Universidade de Stanford, disse ao jornal The New York Times que “haverá um período de abstinência épica” para muitas crianças e adolescentes que passaram bastante tempo diante de telas e agora precisarão “manter a atenção sem ganhar uma recompensa (que o uso das telas costuma trazer ao cérebro) a cada poucos segundos”.

Não é uma equação simples, uma vez que os eletrônicos se tornaram parte tão importante da nossa vida cotidiana – e das crianças – que métricas como “tempo de tela” não têm o mesmo sentido que tinham antes.

“Não se trata apenas de quanto tempo elas estão usando as telas, mas sim de o que estão fazendo com esse tempo”, diz à BBC News Brasil David Bickham, pesquisador do Laboratório de Bem-Estar Digital que conduziu a pesquisa citada no início desta reportagem.

Criar repertórios de brincadeiras offline pode ajudar na hora de desligar os eletrônicos (Foto: Getty Images)

A mesma pesquisa aponta que, para entre 40% e 44% dos pais entrevistados, o uso de telas estava interferindo no tempo que seus filhos passavam ao ar livre, no tempo de atividades presenciais em família e no sono das crianças.

“Vemos que isso (uso de eletrônicos) ficou embrenhado em nossos hábitos, o que preocupa. Mas, ao mesmo tempo, é interessante porque os pais que entrevistamos não estão citando tantas consequências negativas quanto se poderia imaginar”, agrega Bickham.

O pesquisador se refere ao fato de que, para um número significativo desses pais, o uso de eletrônicos estava ajudando seus filhos a manter laços de amizade, a desenvolver habilidades importantes para a vida escolar e – o que pode soar contraintuitivo – a preservar sua saúde mental.

“Fala-se muito sobre preocupações com a saúde mental (de crianças pelo uso de eletrônicos), mas os pais que entrevistamos não relataram tanto isso. Claro que são respostas subjetivas dos pais, mas essas não parecem ser as preocupações ou impactos principais na visão deles”, prossegue Bickham.

“O principal, para os pais, é a questão de as crianças estarem passando muito tempo nas telas, não estarem interagindo o bastante com as pessoas pessoalmente, não estarem dormindo, não saírem para a rua.”

Para Bickham, a “abstinência” citada pelo pesquisador Humphreys não será química (como a de um vício “típico”), mas sim um grande desconforto se as telas não estiverem sempre ali, disponíveis.

“Se eu não tivesse meu telefone comigo durante o dia, seria estranho, eu ficaria mexendo no meu bolso. As crianças vão sentir esse tipo de ajuste – vão ficar desconfortáveis e se queixar. Então precisa ajudá-las a criar habilidades para lidar com isso.”

É do que falaremos a seguir.

O uso da tela é intencional, ou só por ‘inércia’?
Quando as crianças estão usando as telas, Bickham acha importante parar para pensar: esse uso tem alguma intenção ou utilidade concreta – seja uma pesquisa, um contato com um amigo, uma vontade de jogar algum jogo específico ou mesmo de descansar depois de uma atividade cansativa – ou é apenas um uso inercial, do tipo “estou assistindo a vídeos aleatórios na internet”?

Esse uso inercial, não direcionado a nenhuma intenção específica (e geralmente passivo), é o que Bickham considera mais prejudicial, e que “rouba” o tempo de atividades mais enriquecedoras.

Essa inércia, por sua vez, não raro ocorre quando as crianças estão entediadas.

Como as telas oferecem uma satisfação fácil e imediata, elas acabam sendo a primeira coisa que vêm à mente nos momentos de tédio.

Uma primeira sugestão é: deixe a criança conviver com o tédio um pouco mais, antes de ceder à tela.

“O tédio gera desconforto e se você tem uma saída fácil (como as telas), vai usá-la. Mas se aguentar o tédio e não tiver telas disponíveis, você vai encontrar outras coisas para fazer. Então é superar esse estágio inicial”, diz o pesquisador.

Alguns especialistas dizem, ainda, que momentos de tédio são grandes oportunidades de aprendizado para as crianças.

“Um dos nossos maiores desafios, como adultos, ou mesmo adolescentes, é aprender a gerenciar nosso tempo. Então é essencial que as crianças tenham a experiência de decidir por si mesmas como usar esses períodos de tempo não estruturado (ou seja, sem atividade pré-definida)”, escreveu em artigo recente a psicóloga americana Laura Markham, autora de livros sobre parentalidade.

“Talvez ainda mais importante: tempo não estruturado dá às crianças a oportunidade de explorar seus mundos interiores e exteriores, e é assim que elas descobrem quem elas são. É o começo da criatividade; como elas aprendem a se engajar com si mesmas e com o mundo, a imaginar, inventar e criar.”

Aumentar o repertório de brincadeiras offline
Como, então, prevenir que esse tédio direcione a criança às telas?

Para alguns especialistas, é possível que as crianças estejam com menos repertório de brincadeiras offline, justamente porque boa parte do seu entretenimento virou eletrônico ou midiático.

Pais não precisam (nem devem) se ocupar de entreter as crianças a cada minuto, mas podem dar uma forcinha a aumentar esse repertório de brincadeiras.

No caso de David Bickham, o filho dele de nove anos criou uma lista de atividades que ele mesmo pode fazer em momentos de tédio.

Aqui no Brasil, o portal de brincadeiras Tempo Junto também bolou uma lista de ideias de brincadeiras justamente focadas em tirar as crianças de frente das telas.

O site traz outras listas úteis também, por exemplo ideias de brincadeiras para distrair as crianças enquanto os pais precisam trabalhar e para estimular as crianças a brincarem sozinhas de vez em quando.

Limites continuam sendo importantes
Certo, os eletrônicos estão cada vez mais presentes nas nossas atividades. Mas limites continuam sendo importantes, sobretudo às crianças em idade escolar, diz Bickham.

“Impor limites é mais difícil com adolescentes e pré-adolescentes, mas se começamos a colocá-los desde cedo, a norma da casa fica internalizada”, explica.

“Podemos estabelecer normas (para toda a família) como ‘não usamos eletrônicos o tempo todo, não ficamos com a TV ligada o tempo todo, não temos o celular na mão o tempo todo, mas quando precisamos dele, o usamos – tomamos a decisão de usá-lo’. Dessa forma, é um uso mais intencional.”

Um trunfo para ajudar as crianças a desconectar é aproveitar as transições naturais dos jogos (quando acaba uma fase) e intervalos de desenhos e programas, “porque até mesmo para adultos é muito difícil parar quando se está no meio de algo”, diz Bickham.

E se o jogo ou desenho é do tipo infinito, que não acaba nunca, avisos antecipados podem ajudar as crianças a se despedir das telas com menos irritação e menos brigas em casa: “‘você tem mais 5 minutos de jogo, então comece a finalizá-lo’. Esse tipo de aviso prévio não os pega de surpresa no meio da atividade”, conclui Bickham.

Atenção a sequelas físicas das telas…
Um ponto preocupante da pesquisa conduzida por Bickham nos EUA é que o uso de telas está tendo impactos físicos nas crianças.

Muitos pais relataram que, depois de um dia típico de interação com as telas, seus filhos apresentavam problemas como cansaço nos olhos, dor nas costas e no pescoço, dor de cabeça, fadiga e irritabilidade.

“Precisamos (nós cientistas) mergulhar nisso. É algo que demanda mais pesquisas para entendermos melhor essas consequências físicas e se elas deixarão sequelas de longo prazo”, explica Bickham.

Impactos dos eletrônicos no sono já são bem conhecidos, mas pais relataram também efeitos colaterais como dor nas costas e no pescoço, fadiga e irritabilidade (Foto: Getty Images)

Quanto aos efeitos da tela sobre o sono das crianças (e adultos), os estudos já são claros: o estímulo e a luz emitidos pelos aparelhos eletrônicos são de fato prejudiciais.

“Isso já sabemos como mitigar: manter eletrônicos fora do quarto é a intervenção mais fácil”, afirma o pesquisador.

“E temos de ajudar as crianças, principalmente as menores, a não usar nenhum tipo de mídia eletrônica na hora de ir para a cama, porque pode até parecer que vai funcionar (em acalmá-las), mas não é uma abordagem útil. É bom não ter a TV ligada quando elas forem dormir e não ter TV no quarto.”

…E atenção a casos em que o uso dos eletrônicos saiu do controle
A percepção de Bickham é de que, na maioria dos casos, sim, o uso de telas aumentou na pandemia e gerou incômodos dentro da família – mas são incômodos que podem ser resolvidos.

É preciso estar atento a sinais, porém, de quando esse uso excessivo se torna mais perigoso e requer a ajuda de um especialista.

“Um sinal é quando a criança ou adolescente usa eletrônicos a noite inteira ou o tempo todo, por exemplo”, diz Bickham. “Passar a noite toda na tela e ficar cansado durante o dia é o tipo de comportamento que pode causar problemas. Para crianças com dificuldades de autorregulação, é uma causa de preocupação.”

Outro sinal é a agressividade ou problemas de comportamento relacionados às telas.

“Uma coisa é a criança dizer ‘não quero parar (de jogar/ver tela) agora’, isso é normal. Outra é atirar o aparelho contra a janela ou ficar agressiva. É bastante preocupante a tela estar desencadeando essa resposta.”

Na maioria dos casos observados por ele no Laboratório de Bem-Estar Digital, esses exemplos mais graves costumam estar associados a outros problemas de saúde mental infantil, “então (o uso excessivo de telas) os intensifica ou acaba se tornando um sintoma adicional. Esses casos realmente requerem ajuda especializada”.

De modo geral, porém, as pesquisas de Bickham têm indicado que a maioria das famílias é capaz de encontrar seus pontos de equilíbrio, “embora talvez gostassem de uma ajuda em como reduzir o tempo de tela das crianças”.

“Na maioria dos casos, se trata de integrar e desfrutar desse uso de tela na escola e na vida, sem deixar que ele infiltre e perturbe totalmente o seu mundo”, afirma. “Trata-se de reconhecer que é possível direcionar o uso para comportamentos que sejam positivos.”

Fonte: BBC News Brasil

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