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Após anos proibida de estudar pelo pai e marido, ela faz engenharia aos 73

Allice Serafim foi proibida pelo pai de estudar. Cursou só o primeiro ano e foi obrigada a deixar a escola para se dedicar aos afazeres domésticos

9 de março de 2020
Allice Serafim é aluna do quarto período de engenharia de produção (Foto: Arquivo Pessoal)

Allice Serafim é aluna do quarto período de engenharia de produção (Foto: Arquivo Pessoal)

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Quando era criança, Allice Serafim, hoje aos 73 anos, foi proibida pelo pai de estudar. Cursou só o primeiro ano e foi obrigada a deixar a escola para se dedicar aos afazeres domésticos. Na concepção dele, mulher não precisava estudar.

Mais tarde, aos 18 anos, casou-se, mas não se livrou da sina: o marido também considerava que os estudos não eram prioridade na vida de uma mulher — e sim a casa e as famílias.

Só mais de 50 anos depois, com a morte do marido, é que Allice conseguiu realizar o antigo sonho. Concluiu então o ensino fundamental e o médio. Hoje ela é a aluna mais velha do quarto período da faculdade de engenharia de produção. Abaixo, ela divide sua história:

“Eu nasci em 1947 e naquela época as coisas eram bem diferentes de como são hoje. Sou a única filha mulher de uma família de quatro filhos e isso influenciou bastante na forma como fui criada pelos meus pais.

Nasci e morei até meus 8 anos em Catanduva, interior de São Paulo. Aos 7, fui pela primeira vez para a escola. Naquele tempo você começava a estudar nessa idade e aos 10 terminava o quarto ano e concluía os estudos.

Faculdade era apenas para os muito ricos.

Lembro que eu adorava estudar, ia para escola toda feliz. Em casa eu era a responsável por ajudar a minha mãe nos afazeres domésticos e a servir meu pai e irmãos — digo ‘servir’ porque há 70 anos era essa a função da mulher na sociedade: servir os homens da casa. Não tínhamos voz e nem podíamos ter nossas vontades, só obedecíamos.

(Foto: Arquivo pessoal)

Mulher tem que ser boa dona de casa
Terminei o primeiro ano de escola e estava toda feliz que avançaria para o segundo, mas meu pai decidiu que nos mudaríamos para São Paulo, afinal lá ele e meus irmãos teriam a oportunidade de conseguir empregos melhores.

Quando fiquei sabendo que sairíamos da cidade logo perguntei: e minha escola? E a resposta que tive está na minha memória até hoje. Ele disse que mulher não precisava estudar. Que eu deveria me preocupar em ser uma boa dona de casa e deveria ficar em casa para ajudar a minha mãe.

Não contestei aquela decisão dele: antigamente os filhos aceitavam tudo o que era imposto pelos pais e não perguntavam nada. Eram outros tempos.

Não questionava, mas não se conformava
Mudamo-nos para a capital paulista e lá eu fui crescendo, sempre em casa cuidando dos afazeres. Aos 18 anos, meu pai disse que eu precisava me casar. Ele me apresentou um rapaz e em três meses nos casamos. Meu marido tinha um pensamento muito parecido com o do meu pai: para ele a mulher tinha que ficar em casa também e não podia estudar.

Entendi que a minha função era cuidar da casa e, agora, do meu marido. Apesar de não questionar aquela situação, nunca me conformei com ela. Aos 19 anos tive meu primeiro filho; aos 20, o segundo e aos 21, o terceiro. Pronto: eu vivia em função deles. Dez anos mais tarde, tive meu quarto filho, mas quando ele nasceu a minha situação já estava um pouco diferente.

Com 25 anos, conquistei meu primeiro emprego, mesmo contra a vontade do meu marido.

Sai às ruas procurando por uma oportunidade porque queria ter o meu dinheiro e escrever a minha história — que não fosse apenas ficar em casa cuidando de filhos e de marido. Minha mãe era a minha maior incentivadora.

Como eu mal sabia ler e escrever — afinal, tinha estudado apenas um ano — e não tinha experiências de trabalhos anteriores, fui até a Câmara de Vereadores e pedi para servir café. Acho que eles viram a minha força de vontade e me contrataram. Foi a maior alegria da minha vida, eu sabia que minha história estava mudando naquele momento.

(Foto: Arquivo pessoal)

Deus como professor
Nessa época, quando eu chegava em casa, depois que meu marido e meus filhos iam dormir, aproveitava para estudar escondido.

Eu tinha uma Bíblia e um caderno, então pegava um lápis e ia copiando os textos para o caderno. Dessa maneira eu ia aprendendo a escrever melhor, via como era a pontuação, e ia entendendo aos poucos. Como não tinha professor, eu brincava e falava que Deus que estava me ensinando. Assim eu aprendi a escrever textos e até a falar corretamente.

Sabendo ler e escrever melhor, consegui emprego em uma gráfica. Lá trabalhei por 20 anos e tive a oportunidade de aprender muito, além de ter contato direto com revistas das mais variadas — o que pra mim era muito gratificante. Aquele universo me encantava.

Nem tudo eram flores nessa época. Como eu trabalhava fora e ganhava meu próprio dinheiro, meu marido não aceitava essa situação, e em casa nossas brigas eram constantes. No entanto, eu seguia meus sonhos.

Consegui até comprar um carro sem pedir ajuda financeira para ninguém.

Depois de 25 anos trabalhando com carteira assinada, pude me aposentar. Em 1996, meu marido morreu e eu deixei a capital paulista e voltei a morar no interior, em Catanduva, onde tinha passado minha infância.

Durante um período ajudei minha filha e cuidava das minhas netas. Mas quando elas já estavam grandinhas, com 7 anos, decidi que era a hora de eu me dedicar mais uma vez aos meus sonhos.

Na sala de aula seis décadas depois
Em 2014 procurei uma escola e me matriculei no EJA (Educação de Jovens e Adultos). Meu sonho sempre foi estudar e agora, 60 anos depois de estar longe das salas de aula, eu poderia enfim realizá-lo. Muitas pessoas me chamavam de louca, diziam que eu tinha que aproveitar a vida, viajar e não perder tempo sentada em uma carteira de escola. Não dei ouvidos a elas e concluí o ensino médio.

Sempre gostei muito de aprender, então comecei a fazer cursos. Fiz aulas de violão, informática básica, um curso rápido de contabilidade e até de como falar em público. Porém eu ainda tinha um sonho: cursar engenharia de produção.

Foi aí que um dia, ouvindo uma propaganda na TV de uma faculdade da minha cidade, soube que eles tinham aberto o curso. Logo pensei: agora é a hora de eu ter um ensino superior.

Prestei o Enem e o vestibular. Fiquei bem colocada e comecei a frequentar as aulas.

Desde que eu voltei a estudar, nunca faltei um dia sequer às aulas.

Hoje estou no quarto semestre e amo a faculdade. Um dia serei engenheira e quero conseguir trabalhar em uma empresa na minha área. Não tenho dúvidas de que vou conseguir realizar mais esse sonho.”

Fonte: UOL

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