Conhecida como síndrome da autofermentação ou síndrome da autocervejaria, uma condição metabólica rara tem chamado a atenção da comunidade científica por provocar níveis elevados de álcool no sangue sem que o paciente tenha ingerido bebida alcoólica. Estudos recentes apontam que o próprio intestino pode produzir etanol em excesso, resultado da ação de microrganismos do microbioma intestinal.
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🦠 Quando o intestino vira uma “cervejaria”
Durante muito tempo, a síndrome da autofermentação foi tratada como curiosidade médica ou até anedota. No entanto, trata-se de um distúrbio grave, ainda sem estimativas confiáveis sobre quantas pessoas são afetadas no mundo. Na literatura científica, a condição é classificada como “muito rara”, embora médicos acreditem que muitos casos permaneçam sem diagnóstico ou sejam confundidos com alcoolismo ou outras doenças.
Na síndrome, o paciente apresenta sinais claros de embriaguez mesmo sem consumir álcool. Inicialmente, o excesso de leveduras no intestino era apontado como principal causa. Pesquisas mais recentes, contudo, mudaram o foco para determinadas bactérias intestinais capazes de fermentar carboidratos e produzir etanol.
🔬 Estudo amplia entendimento da doença
Um estudo publicado recentemente na revista Nature Microbiology é considerado o mais abrangente já realizado sobre a síndrome. A pesquisa foi conduzida por uma equipe liderada por Bernd Schnabl e Cynthia Hsu, da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, instituição referência em estudos sobre fígado e microbioma.
Os pesquisadores analisaram amostras de fezes de 22 pacientes com síndrome da autofermentação, 21 familiares desses pacientes e 22 pessoas saudáveis que formaram o grupo de controle. A comparação permitiu diferenciar melhor a influência da dieta e do ambiente em relação ao papel específico do microbioma intestinal.
🧪 Bactérias produtoras de álcool no organismo
Em laboratório, as amostras dos pacientes produziram quantidades significativamente maiores de álcool em comparação aos grupos de controle. O fenômeno foi atribuído, principalmente, a bactérias como Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae, capazes de converter carboidratos em etanol em níveis elevados.
“Esses micróbios usam várias vias metabólicas formadoras de etanol”, explicou Schnabl. Segundo ele, a produção pode elevar o álcool no sangue a níveis que tornam o indivíduo inapto para atividades como dirigir, mesmo sem ingestão alcoólica.
A síndrome evidencia como o microbioma pode influenciar profundamente o comportamento humano e a saúde, com impactos que vão além da medicina, alcançando esferas legais e sociais, como fiscalizações de trânsito e julgamentos judiciais.
⚠️ Diagnósticos equivocados e estigma social
Muitos pacientes enfrentam consequências graves antes de receber o diagnóstico correto. Em diversos casos, são rotulados como alcoólatras que bebem escondido, o que compromete relações pessoais, profissionais e a própria credibilidade.
Atualmente, o diagnóstico é complexo e envolve dietas ricas em carboidratos sob supervisão médica, com monitoramento constante dos níveis de álcool no sangue. Diante disso, Schnabl e Hsu sugerem que, no futuro, o diagnóstico possa ser feito a partir da análise de fezes, com foco direto no metabolismo bacteriano.
🧫 Transplante de fezes surge como alternativa promissora
Ainda não existe um tratamento padronizado para a síndrome da autofermentação. No estudo, um dos pacientes apresentou melhora significativa após passar por dois transplantes de fezes, procedimento conhecido como transplante de microbiota fecal (FMT).
Apesar de causar estranhamento, o método consiste na transferência de bactérias intestinais de um doador saudável para o paciente, com o objetivo de restabelecer o equilíbrio do microbioma. A equipe de pesquisadores pretende agora testar sistematicamente essa abordagem em um grupo de oito pacientes.
Especialistas avaliam as descobertas como um avanço importante rumo à medicina personalizada baseada no microbioma, mas ressaltam que ainda são necessários estudos mais amplos e dados de longo prazo antes da consolidação de um tratamento definitivo.
Por Heloísa Mendelshon










